Carlos Nader | Galeria Lume

Depois de uma década dedicada ao cinema, Carlos Nader retorna a um espaço expositivo, a Galeria Lume, que a partir de 31 de janeiro de 2018 apresenta a exposição AUTO. Nela, o cineasta paulistano de 53 anos que começou sua carreira na videoarte dos anos 80/90 reúne agora um conjunto de seis obras – três delas inéditas, frutos de uma parceria inusitada com seu filho Teo, de 17 anos, que é portador de autismo.

“Ao longo dos anos, fui percebendo que o Teo, mais que ‘autista’, é ‘artista’, um artista em tempo integral. O mundo é antes de tudo uma experiência estética para ele. A apreensão da vida é essencialmente plástica, uma fruição constante de imagens, sons, cheiros, movimentos e ritmos. Quando eu entendi isto, entendi também que era hora de eu mesmo voltar para as artes plásticas”, comenta o cineasta.

Em cartaz até 17 de março, a exposição também traz uma reflexão sobre o próprio ato de criar uma obra audiovisual, incluindo várias questões já características do trabalho cinematográfico de Nader. O que é filme e que é real? O que o diferencia um filme da chamada vida real? Que estruturas gramaticais tornam um filme autônomo? Que artifícios artísticos o fazem, ele também, real?

Nader acredita que tais questões, por serem metalinguísticas, também fazem parte do universo do autismo, “afinal o prefixo ‘auto’ significa ‘relativo a si próprio’. Não é coincidência nem exagero ver nos meus trabalhos uma espécie de estética autística. Eles têm circularidade, reiteração, repetição. Eles não diferenciam o concreto do conceitual, o estrutural do conjuntural e nem mesmo a imaginação da paisagem. Essas características são muito parecidas com aquelas descritas na própria síndrome do autismo”.

Segundo Nader, desde que o autismo de Teo foi diagnosticado há cerca de 15 anos, ele tem sido cobrado a fazer um filme sobre o assunto. Não convencido de que esse seria o formato ideal para tratar da condição de uma pessoa “que não gosta sequer de ser fotografada”, o cineasta preferiu estabelecer uma ponte ainda mais larga com o universo do filho, para trazê-lo a público.

 

 

Sessão pipoca

Durante o período expositivo, diversos de seus filmes serão exibidos semanalmente na própria galeria. Nader, que se consolidou como videomaker nos anos 1990, possui uma filmografia reconhecida por uma poética sensível, que perpassa temas universais.

Em Homem Comum, por exemplo, o documentarista acompanha por vinte anos a vida do caminhoneiro Nilson de Paula. Diretor e entrevistado se questionam sobre a falta de sentido da vida. Nas palavras do teórico José Miguel Wisnik, no filme, “o vivido pode ser olhado como uma estranha obra de arte, e a arte como uma estranha forma de vida”.

Já em Paixão de JL, Nader desenvolve um registro poético em torno da figura do artista plástico José Leonilson (1957-1993), de quem foi amigo pessoal. O longa se baseia em fitas que o artista gravou, como uma espécie de diário, nos últimos anos de sua vida. As opiniões de Leonilson sobre assuntos distintos, como política e amor, são entrelaçadas por imagens de suas obras.

 

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