Carlos Garaicoa | Espaço Cultural Porto Seguro

Em que medida a arquitetura pode ser entendida como moldura de uma sociedade? Quais os papéis desempenhados pela disciplina num contexto de urbanização? Como ela se curva a eventuais pressões políticas, ideológicas ou mesmo sociais? Essas são algumas das indagações que cercam e estruturam a obra de Carlos Garaicoa, artista multidisciplinar cubano que, entre 7 de fevereiro e 6 de maio, tem seu trabalho celebrado pelo Espaço Cultural Porto Seguro.

Com curadoria de Rodolfo de Athayde, a mostra Carlos Garaicoa: ser urbano reúne 8 trabalhos do artista. Entre instalações, vídeos, fotografias, maquetes e desenhos, as obras apresentam a viagem criativa do autor, para quem a cidade tem papel fundamental. O cubano constroi uma poética, onde coloca em contraste questões sociais, econômicas e políticas que impactam diretamente na formação das subjetividades e dos conhecimentos do mundo contemporâneo.

“A obra de Garaicoa é, literalmente, a construção física de modelos de espaços utópicos ou reais e a conjugação inusitada de símbolos que constituem também um agudo exercício de conhecimento dos fenômenos humanos, no seu contexto contemporâneo por excelência: a cidade moderna”, afirma o curador, destacando que a mostra ganha força em São Paulo, “uma cidade símbolo da utopia urbana e arquitetônica mundial”.

Para o artista, toda utopia é construída de modo a superar as limitações do presente. Paradoxalmente, entretanto, ela já nasce carregando o prenúncio de sua própria superação. O projeto de uma sociedade ideal entra em crise no instante em que se articula a um programa urbano grandiloquente. Tais contradições são intrínsecas aos trabalhos de Garaicoa, que toma os fracassos do modernismo como agentes catalisadores de mudança e transformação social.

“Eu considero que a arquitetura é esse espaço onde posso discutir as ideias existenciais, políticas e históricas. Tenho um interesse muito grande pela fotografia e pela representação do espaço urbano em geral, porém tratando de encontrar outra problemática, mais próxima à ficção e à história”, afirma Carlos Garaicoa. “Nessa deriva fui me aproximando da arquitetura e, por fim, necessitando trabalhar com arquitetos, em colaboração com uma equipe grande, tratando de convencê-los o tempo todo de que o que estamos fazendo é arte e não arquitetura”, completa.

A mostra abrange desde obras que se relacionam diretamente com o contexto cubano original do artista a produções feitas a partir do olhar de Garaicoa para as diferentes realidades do mundo, incluindo a brasileira. Exemplo do primeiro caso é a instalação Fin del Silencio [Fim do silêncio] (2010), que traz um conjunto de tapeçarias que, somadas a duas projeções, estampam assinaturas de tradicionais estabelecimentos comerciais pré-revolucionários de Havana, capital de Cuba, ressignificadas pelo artista.

Já Saving the Safe [Protegendo o cofre] (2017) conversa diretamente com o contexto brasileiro e apresenta uma escultura do Banco Central do Brasil em ouro colocada dentro de um cofre, fazendo alusão a um dos principais problemas da sociedade contemporânea na visão do artista: as crises geradas pelo mercado financeiro. A exposição também traz a recente instalação Partitura [Partitura] (2017), uma das mais longas criações do artista, desenvolvida durante cerca de 10 anos com a participação de mais de 70 músicos de rua.

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