Camila Alvite | Bianca Boeckel Galeria

A Bianca Boeckel Galeria exibe “Um Minuto Antes“, da artista visual paulistana Camila Alvite, com curadoria de Bianca Boeckel. Em sua segunda individual na galeria, a artista apresenta sua produção mais recente em 15 pinturas a óleo sobre tela, as quais evidenciam um processo de alternância no foco de seu trabalho, em que exerce o protagonismo ao se colocar em destaque – questionando sua própria figura – representada em personagens distintas.

Um Minuto Antes” exprime uma íntima ligação com o atual processo criativo de Camila Alvite: ao imaginar uma cena, uma sensação, um momento, a artista se caracteriza com maquiagem e adereços. Em seguida, se fotografa ou pede para alguém a fotografar e, a partir dessas imagens, realiza as pinturas. “Isso foi um acaso. Me interessei pela técnica, quis fazer um retrato. Tive uma ideia de me maquiar toda, liguei para uma amiga e pedi a ela que me fotografasse. Os elementos foram aparecendo, a fantasia e a personagem surgiram. Como antes de uma fotografia posada há um último e profundo suspiro, a exposição fala sobre esse instante em que ainda estamos sós. ‘Um Minuto Antes’ tenta captar um fio de intimidade, um toque de mãos, um suspiro”, explica a artista.

Ainda acerca de seu método de criação, Camila Alvite acredita que pintar é como um projeto: “A pintura começa muito antes, em um livro que estou lendo, em uma música que estou ouvindo. Da observação surge uma cena, vêm as ideias, as imagens. O processo das pinturas vem antes, quando chega a hora de passar para a tela, a pintura já aconteceu, já está resolvida”. A partir disso, a artista também elabora retratos de amigos, de sua avó, pais e sobrinhos. Sempre vendo a pessoa como uma maneira de explorar uma técnica nova, em um constante aprendizado, na tentativa de explorar um significado maior.

No final, o que Camila Alvite pinta acaba sendo completamente diferente da fotografia, que representa apenas uma etapa. Apesar das pinturas tomarem outro caminho – as cores mudam, as expressões faciais também -, exibem quem é a pessoa antes daquele momento de tirar a foto, através do movimento gestual, do semblante, do respiro e da reação. Ainda, a partir da mesma imagem, produz telas diferentes, em momentos distintos. “Mas sempre sou eu interpretando a personagem, naquele instante antes da fotografia – que serve como referência do que quero mostrar na pintura”, comenta.

Deste trabalho de retratos e autorretratos, Camila Alvite avança e cria figuras com rosto encoberto, apagado, “como seres que procuram uma forma de existir”. Em suas palavras: “É como se eu perguntasse: Quem é aquela pessoa, o que ela quer dizer? Busquei inspiração no livro ‘As Existências Mínimas’, de David Lapoujade, que trata das potencialidades que acompanham cada existência”. Sobre isso, a curadora comenta: “Quando você posa para uma fotografia, você quer mostrar a sua melhor versão. A artista, neste trabalho, capta o que a foto não mostra, alguma história que não está sendo revelada”.

Ao deixar de lado temas que foram recorrentes em seu trabalho artístico, Camila Alvite coloca em evidência um novo aspecto, desenvolvido e estudado ao longo dos últimos 5 anos: os retratos. Sobre esta mudança, Bianca Boeckel comenta: “Com as pinturas dos bichos e de arquitetura, era sempre um universo fantástico e impessoal – tinha o traço da artista, mas o foco era outro. De lá, houve um rompimento para criar outras cenas, pessoas e interações. Percebo que ela precisou ir ao auge da autoexposição, que é um grande autorretrato, pra encontrar uma serenidade e retroceder. Assim, conseguiu romper com a timidez, com seus medos, e se sentir segura para encontrar um novo caminho”.

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