Augusto Fonseca | Casa Fiat de Cultura

Apresentar Narciso de dentro para fora. Essa é a proposta da exposição “Tudo é eco no universo”, do artista plástico Augusto Fonseca, que será inaugurada na Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura. Diferentemente da abordagem em que muitas releituras do mito de Narciso e Eco se ancoram, na mostra o artista trabalha o famoso mito grego numa lógica inversa: ao invés do culto da imagem pela imagem e o que isso diz aos outros, a intenção é que a imagem provoque reflexões introspectivas. Para compor essa narrativa serão exibidas 11 obras, sendo 10 aquarelas e uma obra com técnica mista de desenho e aquarela, e um objeto.

A concepção de “Tudo é eco no universo” partiu de um sentimento interno do artista em relação ao que estava vivendo, das coisas que fazia e via. “Sempre achei interessante o mito do Narciso. Narciso é o herói da consciência. Quando mergulha no lago, mergulha em busca do seu interior. Não se trata apenas de beleza, é também sobre identificação, espelhamento e reflexão. Ele possibilita muitas reflexões atemporais”, conta Augusto Fonseca.

Os desenhos e pinturas que compõem a exposição têm uma veia anatômica, dissecando o corpo físico humano para uma viagem posterior para o mundo mental do homem. Plantas, bulbos e flores também compõem esses corpos. Elas são analogias ilustrativas para trazer para o cerne da reflexão a atual sociedade que, de acordo com o artista, está adoecida. “Penso no Narciso hoje, na sociedade contemporânea, será que se acharia belo? Acredito que não. Nesse sentido, o Narciso de hoje não se reconhece em si, está doente, se acha estranho”, pontua.

Na obra da série “Tudo é Eco no Universo”, o personagem Narciso é retratado sem a representação do seu reflexo, que se perde em meio a ruídos, desenhos, manchas. Já o objeto que integra a exposição é um espelho, pelo simbolismo com Narciso e também pela ideia de reflexão tanto do espaço, quanto do espectador. “Quero criar um jogo de reflexos entre as obras, o espaço e o espectador, criar esse lugar de reflexão, despertar o lado narcísico do público”, esclarece Augusto.

Em texto crítico escrito por Raphael Fonseca, a riqueza de detalhes das aquarelas é proporcional ao desejo de controle por parte não apenas do artista, mas da humanidade. “Aparentemente retiradas de livros históricos de medicina, ao olharmos com atenção notamos que essas composições reúnem aquilo que os corpos humanos tem de mais admirado e temido”, destaca.

Desta forma, Augusto pretende provocar reflexões de autoconhecimento, bem como pensar as relações de alteridade. “Como na arte, o mito é um meio para entendermos e decodificarmos a realidade a nossa volta”, correlaciona o artista.

Compartilhar: