Antonio Henrique Amaral apresenta desenhos do século XXI na Galeria Bolsa de Arte

Com organização e texto crítico de Cauê Alves, mostra "Chegou pelos dedos e... ficou" exibe cerca de 40 trabalhos em técnicas mistas a partir de 3 de março na filial paulistana da galeria gaúcha.

Antonio Henrique Amaral, reconhecido na história da arte brasileira a partir de suas pinturas e gravuras – sobretudo os que usaram a iconografia das bananas –, dessa vez convida o público para conhecer uma faceta mais subjetiva, plural e desconhecida de sua obra: seus desenhos. A exposição “Chegou pelos dedos e… ficou”, com texto crítico de Cauê Alves, apresenta um conjunto de 42 desenhos produzidos ao longo dos últimos 20 anos, grande parte dele em pequenas dimensões. A mostra abre dia 3 de março, terça-feira, na Galeria Bolsa de Arte, a partir das 19h.

Nos desenhos do artista impera a liberdade: o gesto automático que vem de um material pré-consciente oscila entre o figurativo e o abstrato – algumas vezes em um mesmo desenho – culminando num universo fantástico e com toques de humor muito particulares. O uso das cores e do espaço é especialmente característico, com liberdade nas combinações e na ocupação do espaço bidimensional, fazendo uso de materiais dos mais variados: aquarelas, lápis de cor, canetas esferográficas, pastel. “Um traço chama o outro, uma cor chama outra e crio uma relação”, diz o artista, que nunca se preocupou em manter algum tipo de coerência sobre escolas ou correntes artísticas ao longo de sua obra. “Sou um lobo solitário no meio das tendências. Desde os anos 50, não tenho nenhum princípio estético que me guie. A arte é um exercício de liberdade pessoal e de imaginação”, afirma.

Amaral não expõe há 13 anos em uma galeria essa faceta de sua produção, ininterrupta e sempre paralela a seu trabalho em pintura e gravuras. O artista – que reforça só desenhar quando sente vontade, sem uma disciplina rígida de horários – compara tais obras ao que na língua inglesa são chamados “doodles” (ou garatujas, em português): rabiscos que são feitos enquanto se desenvolve outra atividade, como falar ao telefone, por exemplo. “O desenho é o primeiro gesto de exteriorizar uma atividade cerebral, o primeiro relance de materializar algo que existe dentro de você. Para pintá-lo, é preciso estar com a mente distraída, sem uma preocupação de que faça sentido”, explica. Para ele, os desenhos são muito reveladores de sua atividade interior. “E misteriosos, ao mesmo tempo”, completa.

Cauê Alves, responsável pelo texto crítico e organização dos trabalhos, lembra que o nome da exposição, título de uma das obras, dá pistas sobre o caráter mais espontâneo e ligado à manualidade dessa faceta do trabalho de Antonio Henrique Amaral. “É como uma dança sem coreografia ou uma jam para um músico. Amaral faz aqui improvisos que trazem muitas novidades que vêm do acaso”, considera Cauê. Segundo ele, a pluralidade e diversidade desse conjunto é um resultado muito mais de uma atividade do corpo do que da cabeça – ou mais do inconsciente, por assim dizer. “Essa mostra vai apresentar outro lado do Antonio Henrique, mais espontâneo e que nunca foi comercializado”, diz.

De dimensões pequenas em sua maioria – há apenas quatro desenhos em grandes dimensões em todo conjunto – é necessário uma aproximação do espectador, num diálogo mais intimista com a obra. A partir dessa proximidade, minúcias e aspectos de uma vida subjetiva aparecem no trabalho, como um convite para decifrar o processo interior e sensorial do artista.

A exposição na filial paulistana da Galeria Bolsa de Arte, aberta em abril de 2014 fica em cartaz até o dia 28 de março, sábado. Nesse dia, às 11h, acontece uma conversa com o público entre Cauê Alves e Antonio Henrique Amaral na galeria. Na ocasião, o artista conta um pouco mais sobre sua carreira e seu processo criativo.

Sobre Antonio Henrique Amaral
Nascido em 24/08/1935, Amaral é bastante conhecido do grande público por séries como Brasiliana, realizada de 1968 a 1975, na qual as bananas eram o tema de suas pinturas, numa alegoria ao violento e opressor período histórico do regime militar no Brasil – e inspirado na montagem do texto O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. O tema segue presente em sua obra nos soturnos óleos e litogravuras de Campos de Batalha, a partir de 1973, conjunto de obras em que as bananas aparecem amordaçadas, espetadas e dilaceradas. Bambus e Expansões, dos anos 1980 e Torsos, da década de 1990, também são séries marcantes em sua trajetória e reforçam o caráter simbólico em sua obra, em que um elemento é repetido em distintas situações. Para Frederico Morais, esses signos apresentam “novos significados em função do encadeamento de fases e épocas de sua pintura e do relacionamento de sua obra com a realidade do país e do mundo”.

Uma retrospectiva com obras de todos esses períodos foi exibida Pinacoteca em dezembro de 2013, com curadoria de Maria Alice Milliet. A retrospectiva e o artista ganharam prêmios neste ano da APCA e ABCA (Associações Paulista e Brasileira de Críticos de Arte, respectivamente), pela exposição e como personalidade atuante no meio artístico.

Recentemente, dentro da série e Anima e Mania, empregou um traço que desestabilizava a forma e marcava o aspecto do movimento. Também ilustrou as crônicas escritas no jornal Folha de São Paulo de Ferreira Gullar reunidas no livro Resmungos (Imprensa Oficial), que ganhou o prêmio Jabuti.
Sua trajetória é avessa a filiações artísticas mas, em diversos momentos, críticos e curadores apontam influências da Pop Art, do surrealismo e do expressionismo em seus trabalhos. Faz parte de importantes coleções públicas e privadas do Brasil, da América Latina e do mundo, como do Metropolitan Museum of Art (MoMA), Museu de Arte Moderno de México, Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM- SP), Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Museu Nacional de Belas Artes – RJ, entre outros.

O artista morou em Buenos Aires dos quatro aos seis anos de idade e aos 23 anos, após estudar gravura com Lívio Abramo e desenho com Roberto Sambonet. Formado em direito pela Universidade de São Paulo, fez sua primeira individual de gravuras no Museu de Arte Moderna de São Paulo na década de 50 e em 1967 publicou o álbum de gravuras “O Meu e o Seu”. Em 1971 ganhou o prêmio de viagem ao exterior do Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro e se instala em Nova York, de onde só retorna em 1981.

Sobre a Galeria Bolsa de Arte
A Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre iniciou suas atividades no ano de 1980, trabalhando com arte contemporânea. Ela representa hoje alguns dos nomes mais significativos da arte contemporânea nacional, além de não perder um de seus focos, o lançamento de novos talentos. Nestes 34 anos de atividades, foram mais de 250 exposições e a participação em grandes feiras nacionais e internacionais. Desde 2011 a galeria ocupa uma sede de aproximadamente 800 metros quadrados em Porto Alegre, no bairro Floresta, reduto cultural da capital gaúcha.

Em abril de 2014 a galeria abriu uma filial no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Desde então, já fez individuais de artistas do porte de Valdir Cruz, Carlos Vergara, Shirley Paes Leme e Lia Menna Barreto. Também abrigou a coletiva A Invenção do Horizonte, com curadoria de Cauê Alves, com artistas como Saint Clair Cemin, Regina Silveira, Nelson Leirner e José Bechara, e a Expo 14/15, primeira coletiva de um projeto de curadorias de artistas, inaugurado pelo artista Luiz Roque.

 

Serviço
“Chegou pelos dedos e… ficou” – Antonio Henrique Amaral
Abertura: 03 de março de 2015, terça-feira, às 19h
Exposição: 4 a 28 de março de 2015
Endereço: Rua Mourato Coelho, 790
Horários: Seg. a sex., das 10h às 19h
Sábado: 11h às 17h
GRÁTIS

 

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