Antonio Bokel | AM Galeria de Arte

A trajetória artística de Antonio Bokel é uma das ricas e variadas da sua geração. Beneficiário de uma liberdade contemporânea, uma poética de suas experimentações artísticas tem outra duração, outra intensidade. O crítico de arte Giulio Carlo Argan é um livro de arte que faz uma representação do mundo e uma ação que realiza . Antonio Bokel trabalha com a corrosão do conceito de arte, ao utilizar um equipamento crítico que remete, através do seu repertório prolixo, a transformadores transformadores. Suas obras são experiências multidirecionadas, inquietas e interrogativas. As suas críticas às pressões de tessitura urbana, desordenada e anónima, são adequadas ao olhar do artista como um ingrediente activo, revigorando os objectivos e transformando-as em acontecimentos estéticos. Observa-se nas suas obras, uma constante ligação entre a arte e o tecido da vida urbana, como partes constitutivas do seu universo simbólico. Recorre a uma experiência da cidade como seqüências existenciais – todos constroem o seu espaço de referência, todos parecem ser um território, há uma extensão estética e espacial em uma camada mais ampla.

Sua busca por novos materiais e últimas madeiras é exibida em suas pinturas mais recentes, ao mesmo tempo em que apresenta uma superfície de tela com uma espécie de compensação digital, uma parte aparente e outra com os seus gestos pictóricos beneficiados pelo seu fascínio pela geometria, produzindo verdadeiras equações visuais. São pinceladas turbulentas ou gestuais amplas, que tangenciam a tridimensionalidade. A pulsação do movimento e do contramovimento cria uma desarticulação entre as novas ambições, demonstrando sua grande versatilidade para o consumo de energia e diferentes caminhos.

A sua órbita poética traz influências da linguagem contundente da pop art e das patentes estéticas das paletas cromáticas e gestuais de Jean-Michel Basquiat, da Cy Towmbly, da Antoni Tàpies e da Christopher Wool, e da flerta com o ideário construtivo presente em Amílcar de Castro e Mira Schendel Como várias formas de impregnação cromáticas vão emergindo, saturam o plano da superfície por meio de formas expansivas, plenas de geometrias. Mas é na sua pintura que encontra os exercícios do campo de ação, indicativos de uma força integradora de suas investigações estéticas, os núcleos equilibrados, formas e volumes num mosaico de pinceladas rítmicas que trazem à tona como assimetrias do mundo e sinalizam a realidade com suas fissuras, tensões e enigmas a serem decifrados. A parte superior de suas esculturas remete ao corpo humano. Quase orgânicas ou híbridas, é um conjunto de trabalho, por vezes, como elementos seriados. Apresentam combinações visuais surpreendentes e, na sua investigação, emergem, parecem nos interrogar, na sua estrutura transitória, sobre o seu sentido e sua direção.

O trabalho de Antonio Bokel vai estabelecer um elo entre o coletivo, que está ali sendo capturado na vida urbana e a subjetividade do artista, um enxergar por frestas de luz, o ritmo da ordem preestabelecida, esse universo anônimo que se constrói e reconstrói, presente nas organizações humanas. Sua produção é indicativa de uma tensão visual e provoca diferentes nuances nas suas reivindicações estéticas, que despertam conhecimento, diferenças e contradições no público em geral.

Vanda Klabin é cientista social, historiadora e curadora de arte.

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