Angela Lima | Soma Galeria

A exposição Transiente de Angela Lima apresenta obras em técnica mista de desenho e pintura, com curadoria de Fernando Cocchiarale, curador-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM-RJ.

Nascida na Lapa (PR), Angela Lima vive e trabalha em Curitiba, onde iniciou carreira artística como designer de produtos. Sua obra reflete sobre os processos de construção da subjetividade. Com influência da fotografia e do cinema, a artista captura os instantes e os sedimentos da memória por meio dos quais o sujeito se (des)constitui. Usa elementos de sua história, como tecido e costura.

O processo de criação da artista acontece pela investigação de experiências. “Meu ponto de partida é a escolha de imagens, seja em álbuns de família ou em gestos cotidianos, procurando rastrear o vivido” reflete Angela Lima. “Autoreflexão me parece necessário. Não à toa, sinto que as imagens me escolhem, e não o contrário. Neste sentido, percebo como a figura humana, de modo não intencional, está presente em quase todo o material”, completa.

O apreço pelo corpo é uma característica sempre presente em sua obra, mesmo quando Angela Lima trabalhava como designer. “Reencontrá-lo na arte foi emancipador. É o corpo meu ponto de partida e de chegada, o caminho que me leva à mulher. Regresso à figura, portanto, como quem regressa à origem inacessível, espaço de liberdade e de não esquecimento de si mesmo”, argumenta.

Trecho do texto curatorial de Fernando Cocchiarale
Maio de 2018

Esta é a primeira exposição individual de Angela Lima. Até agora, seus trabalhos só haviam sido vistos em três mostras coletivas, todas realizadas em 2017.
Currículos breves, com participações recentes, costumam apontar para artistas em começo de carreira. Mas os trabalhos aqui expostos na Galeria Soma parecem estar na contramão dessa expectativa, já que nos surpreendem pela sensível trama poética produzida pela artista por meio do entrelaçamento de questões semânticas (relativas ao sentido, às mensagens ou aos temas de seus trabalhos) com decisões sintáticas (maneira pela qual intenções semânticas da artista são material e formalmente organizadas, em mídias, linguagens, etc.), conferindo singularidade ao conjunto aqui exposto e, simultaneamente, inscrevendo-o no âmbito mais abrangente da produção contemporânea. Tais características de amadurecimento processual não são facilmente observáveis na produção de jovens artistas.
O lastro poético-processual que atravessa e empresta sentido ao conjunto de trabalhos de Angela, apesar dela ser para o mercado de arte uma iniciante, pode ser creditado à prioridade absoluta dada pela artista à sua própria formação, em detrimento das articulações habituais feitas para inscrever prematuramente obras de artistas jovens no sistema de arte.
Em Transimagens, Angela resume seu processo de trabalho dos últimos 15 anos. Ao longo de desse período ela participou de cursos livres, com foco no processo criativo; viajou para visitar, sob orientação pedagógica, algumas das mostras internacionais mais importantes de arte contemporânea do mundo; graduou-se em pintura (de 2005 a 2010) e especializou-se em História da Arte Moderna e Contemporânea (de 2011 a 2012) pela Universidade Estadual do Paraná.
De acordo com declaração da própria artista, “sua obra reflete processos de construção da subjetividade. Captura – com influência da fotografia e do cinema – os instantes e os sedimentos da memória por meio dos quais o sujeito se (des)constitui. Usa elementos da sua história profissional, como o tecido e a costura”.
Subjetividade, memória, costura, fotografia, cinema, desenho e pintura serão pontos de amarração entre tais narrativas e sua organização sintática no espaço expositivo? Como a edição dos trabalhos no espaço – por meio da montagem – assimila ou descarta conteúdos discursivos como os mencionados pela artista nesse texto?
A reflexão sobre “processos de subjetividade” ou a tematização de “sedimentos da memória por meio dos quais o sujeito se (des)constitui”, certamente não pode ser feita por meio da palavra, já que reduziria os trabalhos da artista a meras ilustrações de narrativas estritamente verbais.

Trecho do texto curatorial de Fernando Cocchiarale
Maio de 2018

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