Ana Nitzan | Arte Hall

© Divulgação

A Arte Hall apresenta a segunda individual da artista Ana Nitzan com curadoria de Eder Chiodetto. Novos trabalhos que discutem a natureza ela apresenta, desenhos usando a terra como pigmento, fotografias banhadas com terra, galhos fundidos em bronze e desenhos feitos com pirógrafo em folhas de madeira.

Despida de tudo menos de seus ornamentos

Criar: irrigar, fecundar, germinar, florescer, existir, transcender, vitalizar, transformar.
Quando a água encontra a terra, tudo se transforma em potência de vida. Quando artistas como Ana Nitzan provocam e mediam esse encontro, tudo se converte em matéria de poesia.
Para o filósofo Gaston Bachelard, a água é o elemento das misturas que, junto à terra, depreende fluidez e maleabilidade a serem moldadas. De caráter feminino e materno, a água também irrompe violentamente em tormentas, se chocando contra a terra e reconfigurando-a.
No espaço de seu ateliê, Nitzan tem se dedicado a pensar a terra como pigmento e a água como matéria que cria devaneios a partir dessa “tintura”. Barro, argila, terracota, poeira e aguadas que germinam frutos, sementes, galhos, folhas, flores.
Em ininterrupta mutação e criação, a polaridade entre líquido e matéria, sob as mãos da artista, ganha conformações que aludem ao gesto primal que faz a vida germinar e também criam ilusões visuais que mesclam micro e macrocosmo. Um torrãozinho de terra diluído em pouca água, pelas mãos de Nitzan, restaura a visão de uma imensa e intransponível cadeia de montanhas. Transmutações.
Um fio de água barrenta corre por uma folha em branco criando desenhos erráticos que a artista negocia com a inconstância dos fenômenos. A umidade, a textura, a temperatura, a curva prenha de gravidade, as matérias de todas as matérias que sintetizam-se na palavra mínima que carrega o peso do mundo: terra.
O trabalho final é também a representação do embate entre o sólido e o fluído, o masculino e o feminino, o gesto provocado e o acaso, que desafia o desejo de qualquer artista em dominar a linguagem ao mesmo tempo em que inaugura novas fronteiras no projeto estético e conceitual de Nitzan. Um certo despojamento de matérias e materiais começa a se acercar da obra da artista ao passo que os elementos naturais ganham protagonismo no encontro dos seus contrários-complementares. Despir-se enobrece os ornamentos.

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