Alex Flemming em mostra na Almeida Prado

ALEX FLEMMING – O oráculo de um alquimista

Com DNA brasileiro e apurada técnica associada à excelência de um projeto artístico – ora vinculado a questões urbanas, à territorialidade e à cartografia, ora a questões da figuração, voltado para o homem e a sua inserção no cotidiano, sugerindo uma referência à ocupação do espaço como uma espécie de resgate da memória na qual por vezes se insere – Flemming fundamenta as raízes de uma produção contínua e consistente, de poderoso calibre estético e conceitual. Natural da cidade de São Paulo, nascido em 1954 e frequentador costumaz desde os anos 1980 da cidade de Berlin, na Alemanha, onde logo passou a residir, o artista é autor de uma das mais coerentes obras da sua geração. Cunhada a partir de um olhar atento e reflexivo da realidade, Flemming desenvolve uma obra biográfica estruturada por metáforas e analogias que dizem respeito a reflexões sobre o tempo e espaço, em constante articulação com a memória afetiva.

Nesse sentido, a obra de Flemming se insere no caminho da construção de um diálogo marcante e significativo entre memórias individuais e coletivas e recortes ou fragmentos da realidade. O artista se configura como um “bunker”, no sentido de reunir em torno de si uma rede articulada de informações, um verdadeiro “banco de dados”, do qual se apropria e o qual centrifuga, dando-lhe outras dimensões simbólicas e a legibilidade de documento artístico e cultural. Com origem ligada ao cinema (ele é autor de vários curtas em Super-8), Flemming fes sua primeira exposição em 1978. Nela, apresentou uma série de nove fotogravuras de conteúdo violento e dramático, em que pontuavam figuras amputadas e torturadas, um espelho do então regime militar brasileiro. Posteriormente, apresentou a série “Alturas”, em que utilizava animais empalhados e móveis pintados. Nessa fase, passou a incluir letras e textos diversos de notícias de jornais, assinaturas e poesias, entre elas trechos da obra dos poetas Torquato Neto e Haroldo de Campos.

Já em 1980, tanto na série “Atletas” (1980), como á série “Body-Buiders” (1987), exposta em 2004, no CCBB-Brasília, o artista mesclou sedução e desejo ao corpo e ao belo, com a violência e os conflitos de guerra, ao mesmo tempo em que fez menção a passagens bíblicas do Novo Testamento. Ao transitar pela linguagem de instalação, a obra “Sacrifício” (XXI Bienal Internacional de São Paulo), utiliza matéria-prima resultante de pesquisas científicas, época em que dá início a uma série de trabalhos com animais empalhados.

A série “Flying Carpets” foi uma reação imediata à ação terrorista de 11 de setembro, em Nova York. Nela, tapetes orientais foram recortados ganhando a forma de aviões, numa alusão também à revanche aérea militar norte-americana ao Iraque e ao Afeganistão. Com obras e projetos públicos realizados no Brasil e no exterior, como o da Estação Paulista de Metrô Sumaré e a instalação “Sistema Uniplanetário in memorian Galileu Galilei”, exposta em 2008 nas ruínas da igreja St. Johannes Evangelist, em Berlin, Flemming é detentor de uma vasta produção articulada por diversas linguagens – gravura, desenho, colagem, fotomontagem, objeto, instalação e essencialmente pintura – em um repertório bastante variado. As obras presentes em inúmeras exposições ao longo de mais de quatro décadas integram o contexto de importantes coleções públicas e privadas; além disso, compõem dezenas de publicações que situam a obra de Flemming entre as mais representativas da produção contemporânea no cenário internacional.

Atendendo ao convite para integrar a representação contemporânea brasileira na exposição “Brasília – meio século da capital do Brasil”, o artista apresentou “Catedral de Brasília”, obra fotográfica impressa em lona de plástico PVC, com intervenção de cor e elementos gráficos do icônico projeto de Oscar Niemeyer. O trabalho “Unikat”, realizado com câmera Leica e estruturado na pesquisa de cor e superexposição de pigmentos, simboliza uma atividade da vida cotidiana que, por meio da projeção da imagem da chama do gás de fogão de cozinha, sobreposta à arquitetura do monumento, nos remete ao preparo do alimento, fundamental à nossa sobrevivência, evocando, num certo sentido, uma memória ancestral, comum a toda história da humanidade. Protagonista de uma obra alicerçada e permeada pela pintura em suas relações com variadas linguagens das quais se apropria, Flemming, ao reivindicar para si a reconstrução de uma realidade, de um mundo, conjugado a uma liberdade inventiva e transformadora, incorpora à sua obra uma espécie de alquimia do seu tempo. Como um oráculo, o artista contribui para escrever a história das artes visuais no mundo contemporâneo. 

Cláudio Pereira 

Historiador e curador atuante nos segmentos das Artes Visuais, do Design e do Patrimônio Histórico no país e no exterior. Exerceu as funções de Direção do Museu de Arte de Brasília e do Núcleo de Imagem e Som do Arquivo Público do Distrito Federal. Integra os Conselhos dos Institutos Presidente João Goulart e Anita Malfatti.

*Texto original publicado em alemão (Berlim, 2013), para a edição do livro da exposição “Brasília – meio século da capital do Brasil”.

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