Aguilar | Galeria ZERØ

A Galeria ZERØ abre suas portas na Vila Madalena, em São Paulo, sob direção de Pedro Paulo Coelho Afonso. A mostra inaugural, “Ossos e Asas 98”, do pintor, escultor, performer e artista multimídia paulistano José Roberto Aguilar, é composta por 36 peças – pinturas em acrílica sobre tela e esculturas de vidro –, e propõe uma revisitação à exposição homônima realizada pelo artista em 1998, apresentando uma nova série de trabalhos que não foram expostos naquela ocasião. Em meio a este momento de dualidades pelo qual o país atravessa, a individual explora o conceito de memória e busca estabelecer uma harmonia entre a dualidade consciência – representada metaforicamente pelas “asas” – versus sobrevivência – “ossos”.

“Asas são sinônimos de consciência enquanto ossos são sinônimos de sobrevivência. Um não existe sobre o outro. Quando um impera sobre o outro, acontece o caos. É a mesma coisa da dicotomia ‘raízes’ e ‘asas’. Muito arraigado ao solo, não tem voo. Sem raízes, o voo se perde no ar”, define José Roberto Aguilar. Vinte anos após a primeira exibição de “Ossos e Asas” e tudo que aconteceu nesse período, certa sincronicidade se faz presente nos dias atuais e confere um caráter contemporâneo a esta exposição: a necessidade absoluta de realizar uma síntese entre a sobrevivência e a consciência. “Entre a distopia e a utopia. Entre a violência e a empatia. Entre você e o outro. Entre asas e ossos”, nas palavras do artista.

Produzida incialmente como uma continuação de “A Criação do Mundo e o Tempo”, individual de grandes proporções realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1996, “Ossos e Asas” representa o oposto da primeira. Enquanto a mostra no MAM era baseada numa tradução de Haroldo de Campos sobre a Gênesis da Bíblia – composta por obras bem coloridas e exuberantes -, “Ossos e Asas” elege a criação do homem como temática, e apresenta peças em preto e branco. “Quando eu denomino Deus, não é em caráter religioso, mas como uma forma motriz da vida. A força motriz da vida ou Deus tem que ser radical. Radicalizei em branco e preto. As formas dos quadros obedeciam aos estudos de funcionalidade para a criação de um ser que funcionava de per si. Os suportes utilizados foram de tela sob chassis, em branco e preto, tintas acrílicas. Também realizei esculturas de vidro simbolizando ossos”, explica José Roberto Aguilar.

Com uma produção em constante metamorfose, José Roberto Aguilar define a pintura como se fosse sua alma, da qual nascem outros caminhos como a videoarte (considerado um dos pioneiros no Brasil), a performance, a música, o cinema e a literatura. Sobre seu processo criativo, o artista conclui: “Primeiro preciso ficar grávido. De ideias. Depois tenho que deletar o passado. Depois tenho que estar no aqui e agora. Depois tenho que ficar vazio. Depois não tenho que seguir regra nenhuma. Às vezes eu consigo, às vezes eu não consigo”.

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