Adrianna Eu | Luciana Caravello Arte Contemporânea

A artista carioca Adrianna Eu transformará o térreo da Luciana Caravello Arte Contemporânea, em Ipanema, em uma grande sala de costura. Trata-se da exposição “Costura-se para dentro”, que será inaugurada no dia 15 de agosto, com cerca de 25 obras inéditas, produzidas este ano, que giram em torno da construção da identidade de cada um e do desejo de pertencimento. A artista relaciona a construção da veste com a construção de si e do seu lugar no mundo,pensando o desvio e a diferença. A mostra será acompanhada de um texto do crítico de arte Douglas de Freitas.

Para criar seus trabalhos, Adrianna Eu constantemente usa os objetos da costura, desviados de sua função original, para falar de afetos. E foram recentesencontros com a artista e travesti Agrippina R.Manhattan e com a cantora negra e não-binário (não éexclusivamente homem ou mulher, estando fora do binário de gênero) Majur que a levaram a pensar na força de tudo aquilo que precisa negar as regras para simplesmente ser o que é.

Utilizando elementos da costura, a artista vai construindo suas obras e tocando em questões que deseja ressaltar. Ela utiliza mapas de moldes de roupas, linhas, botões, tesouras, pedaços de tecidos e rendas, entre outros. Dentre os trabalhos apresentados estará uma grande instalação composta por seis milhões de metros de linha vermelha emaranhados no chão. Sobre ele, estará uma mesa com uma máquina de costura voltada para a parede. A instalação remete à imagem da linha que eventualmente embola na máquina de costura e precisa ser cortada e descartada. A ideia de descarte, do que não deu certo, do que não seguiu em linha reta, é o que me interessa, afirma.

Em muitas obras, a artista insere palavras – escritas ou bordadas – como é o caso do trabalho que traz um pedaço de viés rosa junto a um bordado onde se lê a frase: “a vida não é um mar de rosas”. Outro trabalho traz uma tesoura de costura cuja lâmina está envolta por linhas vermelhas, imobilizando o ato de cortar, criando uma inversão de força e de poder. A obra “Latifúndio” traz uma grande “casa” de botão, com um único pequeno botão ao lado. Já “O grande tabuleiro” éformado por botões de várias cores, como pretos, marrons e beges. Há somente um branco no meio deles. “É uma obra que fala sobre lugar de poder e sobre privilégio”, afirma a artista.

Adrianna Eu garimpa muitas peças de seu trabalho em feiras de antiguidade e muitas delas vêm carregadas de histórias. Uma das obras traz botões onde estão presosrestos de linhas, que já estavam ali quando foram adquiridos pela artista. Ela se utiliza desses rastros para falar do quanto tudo aquilo que abandonamos, ou deixamos de ser, de alguma forma nos ajuda a compor o novo.

Completa a exposição o vídeo “A costura de si” (2005), em que a artista costura os próprios dedos da mão, ao som de uma música de Tom Zé. Esse é o único trabalho não inédito da exposição, mas que será apresentado de forma inédita, através de uma videoinstalação, composta por um monitor, um biombo e um banco com lugar para uma única pessoa assistir ao vídeo de cada vez. Para a artista, era fundamental que esta obra estivesse na exposição, pois ela se relaciona com todasas demais. “O vídeo é um dos meus primeiros trabalhos e fala da construção, desconstrução e eterna reconstrução de quem se é”, diz.  Esse trabalho é marcante na trajetória de Adrianna Eu e foi visto pela artista Louise Bourgeois (Paris, 1911 – Nova York, 2010), com quem Adrianna encontrou por duas vezes e cujo encontro e descoberta de sua obra foram muito marcantes para a trajetória da artista.

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