Abraham Palatnik | CCBB Rio de Janeiro

A história artística de Abraham Palatnik, nascido em Natal em 1928 de pais russos, criado em Tel Aviv, então Palestina, e residente no Rio de Janeiro desde em 1947, é contada nesse panorama retrospectivo, sob curadoria de Pieter Tjabbes e Felipe Scovino.
O segundo andar do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro estará ocupado com 85 trabalhos da década de 1940 a 2016 – pinturas, aparelhos cinecromáticos, objetos cinéticos, objetos lúdicos, mobiliário e desenhos de projetos –, de acervos particulares e institucionais do país, sendo a maioria da coleção do artista, aqueles exemplares eleitos para ficarem no ateliê como referência histórica.
Haverá ainda seis pinturas dos pacientes psiquiátricos do hospital do Engenho de Dentro, RJ, Emydgio de Barros [1895-1986] e Raphael Domingues [1912-1979], que tanto influenciaram uma mudança de rota na carreira do artista.
Palatnik conheceu, em 1948, os artistas doentes mentais do Museu do Inconsciente através do pintor carioca Almir Mavignier [1925-] que, junto com a Dra. Nise da Silveira, implantou o ateliê no manicômio. A partir dessas visitas ao hospital, ele abandonou tintas e pincéis e não voltou mais aos figurativos que pintava até então. E justificou:
– Eles não tinham aprendido nada na escola, não frequentavam ateliês, e de repente surgem imagens tão preciosas. De onde veio essa força interior? Não vou mais pintar porque minha pintura não valia nada, era uma porcaria, relata Palatnik.
O encontro com o crítico Mário Pedrosa o resgatou para a vida artística. A partir da leitura do livro sobre Gestalt, de Norbert Wiener, indicado por Pedrosa, Palatnik avaliou que “tinha potencial para fazer algo”, conta.
Em 1949, ele começou a pesquisar sobre luz e movimento até criar/fabricar os “Aparelhos Cinecromáticos”. Seu ateliê era um quartinho abandonado na casa do tio, onde morava. Em um dia de falta de eletricidade, a imagem da luz de velas se movendo nas paredes lhe deu inspiração para os cinecromáticos – caixa com lâmpadas cujo deslocamento era acionado por motor, criando imagens de luzes e cores em movimento.
Aparelhos Cinecromáticos
Foi com o cinecromático “Azul e roxo em seu primeiro movimento” que Palatnik participou da I Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. O trabalho foi inicialmente recusado por não se encaixar nas categorias tradicionais de pintura ou escultura. Acabou entrando porque a delegação do Japão deixou de vir e o brasileiro ocupou o espaço com sua obra inovadora. Ganhou Menção Honrosa pelo júri internacional da Bienal.
Nos anos 1950, Palatnik desenvolveu pesquisa em pintura abstrato-geométrica e também em design de móveis. A exposição inclui peças de mobiliário assinadas por ele. É nessa época que o artista começa a pintar sobre vidro. Com o irmão, Palatnik funda uma fábrica de móveis que funciona 10 anos. Paralelamente continua participando de todas as bienais de São Paulo, participa de coletivas com o Grupo Frente [posteriormente os neoconcretos], mas não tinha interesse nos estudos teóricos do grupo e se afastou.
Objetos Cinéticos
Ainda na década de 1950, ele expõe em coletivas em Paris e Viena. Em 1964, cria os “Objetos Cinéticos”, um desdobramento dos Aparelhos Cinecromáticos. Participa da Bienal de Veneza de 1964, o que deslancha sua carreira no circuito internacional.
Os Objetos Cinéticos embutem a relação arte-tecnologia, novas conquistas da ótica, virtualidade da imagem e a insatisfação com a técnica pictórica do pincel. São aparelhos construídos por hastes ou fios metálicos que têm nas extremidades discos de madeira de várias cores. Hastes e placas são movimentadas por um motor, com variação de velocidade e direção.
Progressão em jacarandá e em cartão cortado
Uma outra série dessa retrospectiva, “Progressão”, feita com jacarandá, surgiu da observação de sobras de toras da madeira que uma serraria jogava fora. São “pinturas” formadas por sequências de lâminas finíssimas de jacarandá montados ritmicamente, aproveitando a materialidade dos veios, nós e outras marcas naturais da madeira. Palatnik usou o mesmo sistema com cartão cortado, também presente na mostra.
Acrílica e corda sobre tela
Seu traço inventivo e experimental aparece na série de pinturas com barbante e tinta acrílica de meados dos anos 1980. A pintura ganha um volume sutil que produz um efeito ótico e equilibra o recurso precário do barbante com uma pesquisa sensível sobre o cinetismo e a possibilidade de expansão da forma e da cor através do movimento das linhas e do espectador em torno da obra.

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