À sombra do comum | Andrea Rehder Arte Contemporânea

O que é comum é comum a todos, de baixo custo, acessível, barato. Depois de 105 anos do primeiro ready-made de Marcel Duchamp, parece que essa operação se cristalizou, ficou luxuosa, bem acabada, o que parece ser um contrassenso pois por trás do uso de um objeto comum, está a ideia de democratizar o acesso à arte. Não seria mais necessário um escultor comprar uma pedra de mármore para fazer uma escultura, ou fundi-la em bronze, ele poderia usar um objeto que tivesse ao seu alcance. Não precisaria ter uma tela de linho com uma moldura dourada, poderia fazer uma pintura ou uma colagem com qualquer material achado na rua. Como ocorreu com os artistas ligados a Arte Povera, que produziram obras utilizando materiais “comuns” para a criação de obras de grande profundidade. Pode-se dizer o mesmo no início do século XX, das obras criadas por Kurt Schwitters e suas experiências MERZ. A cada impulso na industrialização do século passado, no começo, no meio e no fim, houve um aumento dos excedentes de objetos e imagens. Os artistas nesses momentos usaram o que estava à sua volta, tanto por uma questão de facilidade como de se ter uma vontade e necessidade de interferir no mundo à sua volta. O comum como objeto ou imagem mundanos, corriqueiros, sem valor.

Esta tem sido uma tradição na Arte, os moradores de rua, as prostitutas como modelos nas pinturas Barrocas, os alimentos preparados nos porões das casas frias europeias, a arte popular no Modernismo brasileiro, as imagens dos jornais nos anos da ditadura civil-militar, a arte sempre trazendo para dentro dela o que não é arte. Mais uma vez o comum surpreende. Aquilo que é corriqueiro leva para o centro de uma outra dimensão. Retira do cotidiano a sua capa utilitarista e oferece ao observador um sentido que ultrapassa o trivial.

Os artistas desta exposição trabalham o discurso de suas obras utilizando materiais e imagens comuns, tanto físicos como digitais, materiais de acesso fácil. Embora o ponto de partida para suas ações, tenha início com o emprego de matérias e materiais rotineiros, aliados a gestos e ações também originados dentro de um universo cotidiano, é justamente essa combinação que revela uma linguagem individualizada e particular. Uma característica partilhada por todos, talvez seja a utilização de imagens que evoluem por vários meios expressivos. Captadas inicialmente por um meio primordial, como desenho ou fotografia, desdobram-se em objetos, pinturas, vídeos, etc.

A curadoria é de José Spaniol e Sergio Romagnolo.

Os seis artistas da mostra são alunos ou ex-alunos do curso de Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, UNESP.
Artistas: André Barion, André Schütz, Beatriz Ruco, Luiz Fernando Misao, Mariano Barone e Jorge Brazílio.

Compartilhar: