À Nordeste | Sesc 24 de Maio

“A Nordeste de que?”, a indagação e provocação do artista cearense Yuri Firmeza foi o que motivou a exposição À Nordeste, que o Sesc 24 de Maio recebe entre 15 de maio e 25 de agosto. Com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, reúne um conjunto de 343 trabalhos, de diversas linguagens e suportes, do barro aos memes, criações singulares de 160 artistas — a maior parte deles nordestinos, mas não exclusivamente. Artistas de contextos, linguagens e interesses diversos dialogam horizontalmente: em comum, uma produção pulsante, que problematiza os imaginários que se têm acerca do Nordeste e questiona os lugares tradicionais — físicos e metafóricos — de se estar no mundo. A crase em À Nordeste surge como elemento desafiador do estereótipo regionalista, pois evita o artigo definido — e, com ele, uma identidade unívoca — de “o Nordeste”:

“Essa exposição não se pretende regionalmente identitária. Com esse conjunto riquíssimo, diverso e heterogêneo de obras e artistas, não temos qualquer pretensão em apresentar ao público o que é o Nordeste hoje, mas, sim, o que é estar à Nordeste. Falamos aqui de uma posição (e seus constantes reposicionamentos) e não de identidade. Sob essa perspectiva, lançamos luz sobre jogos políticos e estéticos, marcados por contraposições em relações às hegemonias, centralidades e, inclusive, outras periferias, em suas mais variadas acepções”, afirma Clarissa Diniz.

A fim de atualizar suas pesquisas já voltadas para a região, conhecer novos artistas e projetos e, de alguma forma, moldar a curadoria da exposição, os curadores revisitaram as nove capitais nordestinas, além de interiores significativos para alguns desses Estados — ora em trio, em dupla ou, raras vezes, individualmente, ainda que na companhia de representantes do Sesc. Na prática, as viagens de pesquisa aconteceram de agosto de 2018 a janeiro de 2019.

“Iniciamos essas viagens e visitas a campo no segundo semestre do último ano, em pleno processo eleitoral. Neste período, o Nordeste vivenciou um momento um tanto quanto singular, revigorante, de contraposição a uma ideia de Brasil que acabou prevalecendo naquele contexto”, pontua Diniz. “Pudemos ver um Brasil em transformação, a partir de um Nordeste de muitas lutas, mobilizações e reivindicações em torno de suas questões”, completa Bitu Cassundé.

Entre os artistas que integram o corpo da exposição, Abraham Palatinik, Almandrade, Antônio Bandeira, Ayrson Heráclito, Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, Bispo do Rosário, Cristiano Lenhardt, Gilberto Freyre, Glauber Rocha, Jean-Pierre Chabloz, Jonathas de Andrade, Juliana Notari, Leonilson, Marepe, Mestre Vitalino, Romero Britto, o coletivo Saquinho de Lixo, Pêdra Costa, Tadeu dos Bonecos, Véio, Zahy Guajajara e muitos outros.

“Temos justapostos artistas renomados e criadores culturais que sequer estão inseridos no circuito que hoje entende-se como o circuito da arte contemporânea. Não hierarquizamos aqui as diversas formas de produção de cultura, como outrora se fez entre “cultura erudita” e “cultura de massa”.  Esse conjunto cumpre um desejo que é dizer o que é a região hoje e quais são as questões ali em voga. A exposição é muito mais sobre a presença de uma produção do agora e sua potência criativa”, afirma Marcelo Campos.

Para facilitar a navegação do público em meio à exposição, que pelo volume de artistas e obras assemelha-se a uma Bienal, os curadores dividiram os trabalhos em oito núcleos distintos, permeáveis, que se ramificam e contaminam uns aos outros. São eles Futuro, Insurgência, (De)colonialidade, Trabalho, Natureza, Cidade, Desejo e Linguagem. Neles, obras já existentes se articulam a 12 criações inéditas, especialmente comissionadas pelo Sesc 24 de Maio para a exposição.  Alguns dos trabalhos, inclusive, foram adquiridos ao longo do processo de pesquisa. Foram comissionados os seguintes artistas: Daniel Santiago (PE), Arhur Doomer (PI), Gê Vianna e Márcia de Aquino (MA), Ton Bezerra (MA), Isabela Stampanoni (PE), Pêdra Costa (RN), Jota Mombaça (RN), Ayrson Heráclito, Iuri Passos e Kabo Duka (BA), SaraElton Panamby e Nara Albuquerque (MA), Marie Carangi (PE) e Alcione Alves (PE), Luis Matheus Brito (SE) e Marcelo Evelin & Matheo di Blasio (PI / Itália).

Sob oito chaves de leitura diversas, tal como proposto por seus núcleos, a exposição propõe o mergulho em questões e perspectivas não-hegemônicas em torno do imaginário que se tem dessa região. O Nordeste emerge então não como um lugar, mas como uma posição, uma situação em meio a um pensamento pautado por centralidades impositivas, colonialistas, extrativistas, que posicionam o centro-sul do País como caixa de ressonância e instância normativa para comportamentos estético-formais.

A exposição À Nordeste contará com uma série de recursos acessíveis, como videolibras, audiodescrição, maquetes e reproduções táteis de trabalhos selecionados junto à curadoria.

Futuro

A colonização do território hoje chamado de Brasil teve início no nordeste do País. Talvez por isso, à região comumente atribui-se um imaginário de traços arquetípicos, intrinsecamente conectados a narrativas originárias e patrimoniais. Ainda assim, sempre coube à região um olhar à frente de seu tempo, um desejo de futuro capaz de reescrever sua história. Em meio a seus atravessamentos, andarilhos messiânicos, porta-vozes de uma nova era, a exemplo de Antônio Conselheiro.

Não faltam aos fluxos do Nordeste visões e hipóteses sobre sua existência não enquanto periferia, mas, sim, como centro. Ao mesmo tempo, a torção das tradições e de seus ícones é provocada por artistas que os reinterpretam ao inscrevê-los em novos contextos sociais. É o que faz Tadeu dos Bonecos com a carranca de fibra de vidro e LED na dianteira de sua moto e Tiago Santana, com o registro fotográfico de vaqueiros sobre motos. Prevalecem os sentidos cosmológico das carrancas e o social dos vaqueiros justamente porque têm suas presenças tradicionais reinventadas — prática que se dá em todos os campos da vida e que encontra, na criação, um território profícuo.

Insurgência

Historicamente, o Nordeste insurge-se em revoltas e resistências conduzidas por grupos revolucionários e movimentos messiânicos, sob forma de organização política e religiosa. Atualmente, os feminismos e as lutas negras e indígenas ganham cada vez mais espaço para suas vozes, travando batalhas contra a invisibilidade e a desigualdade, movimentos dos quais a arte participa com produção simbólica, militância e debate crítico. A insurgência impõe-se então como gesto irredutível para a proteção de corpos sujeitos a violações inúmeras.

Nesse contexto, trabalhos como A gente combinamos de não morrer (2019), performance de Jota Mombaça, artista do Rio Grande do Norte que, inspirada em uma obra da escritora Conceição Evaristo, cria uma ação contra a necropolítica, chamando atenção para a vulnerabilidade de corpos periféricos fadados à morte. Também neste núcleo, as armaduras de ferro e couro de Jayme Fygura, artista que há mais de 40 anos caminha pelas ruas de Salvador, armando seu corpo com objetos prosaicos que parecem protegê-lo do mundo, ao mesmo tempo que ameaçar aqueles ao seu redor.

(De)colonialidade

Estruturada por um processo de colonização, a formação social do Brasil possui um profundo lastro na formação do Nordeste. Por trás de cidades ladrilhadas e pintadas a ouro — centros produtores de riqueza dos primeiros ciclos econômicos de um País colonial -, uma região maculada em dimensões das mais violentas e subalternizantes, a exemplo da escravidão e da propagação da monocultura. Entretanto, entre os séculos XVIII e XIX, o Nordeste experimentou uma grande transformação em sua centralidade econômica, social e política, tornando-se no século XX, sinônimo de miséria e vulnerabilidade social — o que lança, sobre seus sujeitos, mais uma dura camada de preconceitos.

Os artistas aqui evocados fazem visível essa quebra de estigmas e estereótipos, lutando pela visibilidade de corpos negros, indígenas, trans, não binários, devolvendo-lhes a soberania cultural, ética, social, moral e estética outrora saqueada pela colonização e ainda hoje em disputa.

Entre os trabalhos desse conjunto, um díptico audiovisual da artista maranhense Zahy Guajajara. Em um dos quadros, o registro de um exame de ultrassonografia da artista, onde seu bebê protagoniza a imagem.  No outro, uma performance ritualística em meio a uma floresta, à beira de um rio em que, gestante, Zahy se cobre de barro e folhas. Colocadas lado a lado, as disparidades desses mundos sublinham as violências da colonização e da interculturalidade tal como experimentadas desde a perspectiva da mulher e mãe indígena na atualidade.

O alagoano Jonathas de Andrade apresenta O caseiro, também dois registros audiovisuais em diálogo. Em uma das telas, um trecho de O Mestre de Apipucos (1959), filme de Joaquim Pedro de Andrade que acompanha um dia na vida de Gilberto Freyre. Na tela ao lado, um filme produzido pelo artista em 2016, com um caseiro que vive e trabalha na casa em que viveu Freyre. Os cortes sincronizados entre os dois filmes estabelecem paralelismos que realçam contrastes nas questões de classe e raça, e revelam a ação do tempo sobre a arquitetura, bem como sobre as ideias e a figura histórica do escritor e estudioso, em grande parte responsável pela ideia que se tem hoje do Nordeste.

Trabalho

Se, de um lado, a ausência de chuva que atingiu a região no final do século XIX colaborou para a afirmação da ideia de “sertão”, de outro, a seca forçou migrações de suas populações rumo ao sul do Brasil. Configurando grandes massas de trabalhadores, os nordestinos adentram no século XX quase como sinônimos de mão de obra barata. Muitas vezes são empregados em condições precárias, quando não, mantidos em situação de desemprego e de extrema vulnerabilidade social.

Um trágico exemplo dessa situação histórica são os “soldados da borracha”, grupo de 60 mil trabalhadores nordestinos compulsoriamente alistados pelo Governo Vargas nos anos 1940 para a extração de borracha na Amazônia a fim de atender a uma demanda comercial dos Estados Unidos da América. Na mostra, um conjunto de cartazes de Jean-Pierre Chabloz, suíço radicado no País e criador dos anúncios que sob um discurso épico e ufanista, convidava a população a envolver-se no projeto pelo bem da nação.

Do sergipano Alan Adi, Proibido cochilar, vol. II, conjunto de trabalhos de linguagens diversas. Reunidas, as obras jogam luz ao cotidiano de muitos nordestinos que vivem em São Paulo e que são obrigados a trabalhar enquanto proporcionam a uma elite momentos de lazer e turismo.

Natureza

Com uma área de mais de 1,5 milhão de metros quadrados, o Nordeste brasileiro situa-se entre a Linha do Equador e o Trópico de Capricórnio, inscrevendo-se na parte mais luminosa do planeta e, de algum modo, transformando seu contexto ecológico em gestos políticos ao iluminar as urgências da história: na terra da luz, o Ceará, a abolição da escravidão deu-se quatro anos antes da Lei Áurea; o Recôncavo Baiano, por sua vez, iniciou a luta pela independência antes do resto do país. Pensar a natureza dessa região é, portanto, encarar as perspectivas produzidas sobre ela nas dimensões histórica, simbólica e socialmente, inclusive.

Os artistas reunidos neste núcleo politizam e recriam os sentidos da natureza, de seus biomas, de suas linguagens, das relações entre a espécie humana e outras formas de vida. Entre os trabalhos, destaque para Provisão (2009), de Rodrigo Braga, registro audiovisual de uma performance do artista, que ao lado de um uma árvore cria uma vala, sobre a qual a enterra. Tomando a natureza como sinônimo de riqueza econômica, guarda-a vislumbrando tempos difíceis, jogando luz para as contradições que cercam a relação homem versus natureza no mundo contemporâneo.

O maranhense Cláudio Costa é outro artista que possui alguns trabalhos integrados ao núcleo. Há anos, Costa toma o colecionismo de matérias extraídas da natureza como sua principal atividade, esculpindo a partir de uma situação de “morte” da natureza. Compila porções de terra, folhas e pedaços de árvores, criando a partir desse conjunto, objetos e esculturas únicos.

Cidade

As primeiras capitais do Brasil situavam-se a nordeste de seu território, onde também foram fundadas as primeiras universidades, jornais e portos. Cosmopolitas, as cidades dessa vasta região buscaram também se conectar por terra, abrindo estradas e ferrovias — como a Transnordestina e mesmo a Transamazônica —, sulcando cicatrizes nos mapas e na história política do país, abrindo caminho para uma desigualdade social traduzida numa arquitetura da violência, num urbanismo racista e em formas de organização social que distanciam e que separam, cada vez mais, aqueles que nunca cessaram de borrar as margens que os centros insistem em fortificar.

Do cosmopolitismo estético-político das cidades nordestinas que surgem, trabalhos como Edifício Recife (2013), da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, que reflete e tensiona as políticas e as memórias patrimonialistas em constante disputa com uma enxurrada de referências contaminadas pela globalização. A obra consiste em um minucioso levantamento cartográfico da cidade de Recife e as esculturas que, por força de uma lei municipal, guardam as entradas de importantes edifícios da capital. A cada um desses trabalhos inventariados, a anexação de depoimentos sinceros e de descrições verdadeiras sobre esses objetos e suas relações com os prédios, a cidade e o entendimento do que é bonito ou feio, relatos levantados pelos artistas junto aos porteiros e faxineiros, muitas vezes responsáveis por sua manutenção.

Sob uma perspectiva mais contemporânea, um conjunto de gifs e letreiros em LED do coletivo Saquinho de Lixo, responsável por uma página de memes no Instagram. Com muito humor e grandes doses de ironia, os trabalhos apresentam ao mundo digital uma radiografia das questões atuais do cotidiano, sob uma perspectiva sobre o que é ser nordestino hoje em dia.

Ainda no núcleo cidade, um trabalho comissionado: Corpografia do Pixo (2019), da dupla Gê Vianna e Márcia Ribeiro. Naturais do Maranhão, as artistas dançam o pixo, traduzindo seus grafismos em uma linguagem corporal que se relaciona diretamente com eles e também com a cidade.

Desejo

Um desejo que foge à norma. Do carnaval aos motins, do sexo à poesia, desejar é um exercício de liberdade e se dá na prática dos corpos, das ruas, dos livros, das assembleias, das paisagens. Em uma região de profundo machismo e de altos índices de homofobia, transfobia e feminicídio, o desejo é disputado por violências e abusos diversos e por seu avesso: um desejar emancipatório, capaz de reelaborar identidades e transicionar gêneros. Desejar é um ato político intensamente explorado também pelos artistas, cuja obra se faz a nordeste de uma heteronormatividade.

Entre os trabalhos que compõem o núcleo, Mimoso, de Juliana Notari, artista pernambucana que, sob as lentes de uma câmera, realiza um vídeo performance, chamando atenção para um dado assombroso que marca a Ilha de Marajó, no Pará: um dos maiores índices de feminicídio do País. Tomando um búfalo como símbolo de masculinidade, a artista se amarra a ele completamente nua, enquanto é arrastada pela areia da praia. Sabendo que o animal seria esterilizado no dia seguinte, ela decide incorporar esse episódio, devorando seus testículos como uma espécie de disputa e desafio em torno de sua proclamada virilidade, em uma experiência que incita reinvenções de nossas ideias de masculinidade e feminilidade.

Ainda sob a chave do desejo, um vídeo comissionado de Alcione Alves, influencer que ganhou as redes ao atribuir narrações descritivas a danças aleatórias encontradas na rede ou mesmo produzidas por ela. Para a exposição, Alcione foi convidada a pensar em uma narração que traga à tona questões intimamente ligadas ao Nordeste.

Linguagem

A alfabetização é um instrumento de poder e de dominação. Ao mesmo tempo em que indivíduos colonizados tiveram de se submeter a linguagem de seus opressores para negociar e reivindicar suas singularidades, alfabetizar-se na língua dominante é um modo de lutar por espaço e voz num mundo global. Assim é que recentemente testemunhamos o ressurgimento e a reinvenção de línguas destruídas pelos genocídios e epistemicídios da colonização. Sob a perspectiva vocabular e gramatical, gírias, sotaques, pajubás e línguas indígenas reescrevem e reinscrevem, a nordeste, as narrativas hegemônicas.

Vinculadas diretamente às matrizes africanas, temos neste núcleo o trabalho de figuras como Rubem Valentim e Mestre Didi que, cada um à sua maneira, evocam com esculturas, certa ancestralidade, visualmente representada por desenhos, formas e materiais que fazem referência aos orixás das religiões afro-brasileiras. Já numa linhagem indígena, as esculturas em madeira em Zé do Chalé, artista de Sergipe, que esculpe figuras alongadas e repleta de camadas em pedaços únicos de madeira.

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