A Cidade, as ruínas e depois | Torre Malakoff

O Ministério da Cultura e a Funarte, em parceria com a Secretaria de Cultura de Pernambuco – Secult/PE e com a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe, trazem para a Torre Malakoff a exposição A cidade, as ruínas e depois. A transformação das urbes e o momento particular vivido pelas cidades brasileiras após anos de crescimento econômico e décadas de processamento do legado modernista são as linhas gerais da exposição (realizada através do Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015 – Espaços Norte/Nordeste) e que vai apresentar trabalhos de Andrei Thomaz, Daniel Escobar e Marina Camargo, com curadoria de Márcio Harum.

O trio lança seu olhar sobre esses espaços que sofreram diversas transformações nos últimos anos (especulação imobiliária, caos na mobilidade, disputas de território…) e que, agora, sentem os efeitos da crise econômica. Essas questões não são novas para os artistas, os quais já vêm se debruçando, anteriormente, sobre guias de viagem, mapas urbanos diversos, arquivos de fotografias documentando as mudanças da paisagem urbana ao longo do tempo, mitos urbanísticos, instrumentos de orientação, publicidade no espaço urbano, a especulação imobiliária, as escolhas sobre o que revelar e o que ocultar na urbe. “São artistas que pensam e dialogam com o substrato urbano nas suas produções. Todos estão atentos a esse metabolismo das grandes cidades”, pontua Márcio Harum.

Os três abordam o espaço, a paisagem ou a cidade a partir de um ponto onde não é muito possível distinguir realidade e ficção. “Penso que este seja um ponto comum muito eficiente e capaz de unir obras produzidas por processos totalmente artesanais a obras geradas por softwares de última geração, por exemplo”, destaca Daniel Escobar. Andrei Thomaz, Daniel Escobar e Marina Camargo também formaram-se na mesma escola – o Instituto de Artes da UFRGS. Eles têm Porto Alegre como referência, ainda que tenham vivido em outras cidades e tenham percursos artísticos marcadamente distintos. Atualmente, Andrei Thomaz vive em São Paulo, Daniel Escobar em Porto Alegre, e Marina Camargo entre Porto Alegre e Berlin.

Segundo o curador, o pensamento que norteia a exposição é a metabolização dos espaços urbanos nas grandes metrópoles brasileiras. “É interessante notar como eles estão trabalhando essa questão da descaracterização da paisagem urbana que tem acontecido em São Paulo, no Recife, em Porto Alegre… É um pensamento sobre o urbano”, comenta Márcio Harum.

Ao idealizarem esse novo projeto, o segundo do trio – que desenvolveu em 2010 um outro, intitulado Lugares e Representações –, eles buscaram um espaço urbano novo, onde ainda não tivessem atuado e que estivesse fora do eixo habitual das mostras no país. “Nenhum de nós tinha muito contato com o Recife. Há muito tempo tive uma obra exposta numa coletiva no Museu Murillo La Greca, mas nossa produção pode ser considerada inédita na cidade”, diz Andrei Thomaz. “Para mim, há várias razões nessa escolha. Uma delas é por ser uma cidade que me parece ter um paralelo com Porto Alegre, não por semelhança, mas por serem duas cidades com uma vida cultural ativa e fora de um eixo da região sudeste”, complementa Marina Camargo.

Além disso, a capital pernambucana tinha um espaço interessante e parceiro da Funarte, a Torre Malakoff, edifício que já serviu como um observatório astronômico e que durante muito tempo ofereceu um mirante para a cidade do Recife. “Como nossas poéticas e conceitos de trabalho estão geralmente voltados para questões relacionadas ao contexto das grandes cidades, pensamos que seria interessante projetarmos um universo de discussão acerca da cidade e seus processos de transformação em um local de onde se costumava olhar para a cidade”, pontua Daniel Escobar. O fato do Recife viver um momento especial, no qual a problematização das questões da urbe estão em foco, através, por exemplo, do movimento Ocupe Estelita, também reforçou essa seleção. “Não à toa, Recife é o cenário de O Som ao Redor, filme emblemático do quanto nossas cidades ainda são carregadas por estruturas sociais da época da colonização, ao mesmo tempo que sofrem o efeito da especulação imobiliária”, pontua Andrei Thomaz.

A exposição vai apresentar tanto obras individuais, como outras realizadas em parceria especialmente para o projeto. O trio, que prefere não ser visto como um coletivo, criou o aplicativo As ruínas e depois, uma espécie de guia sonoro da exposição e documentação visual da mesma, que estende sua abrangência para além do espaço expositivo.

Os trabalhos individuais atestam a própria transformação vivida ao longo do tempo pela produção de cada um dos artistas. Se antes o foco estava na forma de representação das cidades, hoje aspectos políticos da transformação urbana e da representação de espaços, junto com os efeitos do tempo, são o centro de atenção. “Vemos aqui uma oportunidade de pensar o novo momento social, político e econômico no qual o país se encontra a partir da produção em arte contemporânea”, dizem.

O projeto contempla dois encontros com o artista Andrei Thomaz e com o curador Márcio Harum, um no Recife, na própria Torre Malakoff, no dia 20 de outubro, e outro em Olinda, no Atelier Mutirão de Cultura, no dia 21. A proposta é conversar com os artistas e com o público locais abrindo o debate sobre as questões levantadas pela mostra e ao mesmo tempo se aproximar um pouco mais da realidade e contexto da cidade. Também será produzida uma oficina com até 15 professores da rede pública, com o objetivo de preparar e discutir atividades didáticas, que possam ser desenvolvidas em sala de aula, relacionadas aos temas e trabalhos presentes na exposição. Ao final, um catálogo com imagens das obras e da exposição montada, com texto crítico de Cristiana Tejo, do curador e da coordenadora do projeto educativo será lançado e distribuído para instituições culturais e disponibilizado em PDF no site da mostra.

Os Artistas

ANDREI THOMAZ (Porto Alegre, 1981) www.andreithomaz.com

Andrei Thomaz é artista visual e professor. Mestre em Artes Visuais pela ECA/USP e formado em Artes Plásticas pela UFRGS. Sua produção artística abrange diversas mídias, digitais e analógicas, envolvendo também várias colaborações com outros artistas, entre as quais encontram-se performances sonoras e instalações interativas. Entre os prêmios e editais pelos quais foi contemplado, encontram-se a Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais 2014; #1 C.LAB – Blau Projects, com curadoria de Douglas Negrisoli, 2014; Edital de Estímulo à Produção Audiovisual do Espaço do Conhecimento UFMG 2012; Prêmio de Ocupação dos Espaços da Funarte 2010, junto com Daniel Escobar e Marina Camargo; Edital do Centro Cultural Banco do Norteste 2010; 63 Salão Paranaense, 2009; Prêmio Atos Visuais, 2007; Prêmio FIAT Mostra Brasil, 2006. Participou de festivais como Videobrasil (2011), FILE (diversas edições) e outros. É sócio da produtora Mandelbrot, onde atua como programador e coordenador no desenvolvimento de projetos interativos. Vive e trabalha em São Paulo, SP.

DANIEL ESCOBAR (Santo Ângelo (RS), 1982) www.danielescobar.com.br
Graduado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS, a sua pesquisa aborda as paisagens do desejo criadas pelo consumo e pelo entretenimento, a partir da apropriação de objetos ou símbolo ordinários e cotidianos, próprios ao mundo urbano. Entre as mostras individuais recentes destacam-se A História Mais Curta, Celma Albuquerque Galeria de Arte (Belo Horizonte, 2015), A Nova Promessa, Zipper Galeria (São Paulo, 2014) e Seu Lugar é Aqui, seu Momento é Agora, Santander Cultural (Porto Alegre, 2014). Participou de exposições como: Depois do Futuro, Parque Lage (2016), Cidade Gráfica, Itaú Cultural (2014); X Bienal de Arquitetura de São Paulo (2013); 18o. Festival de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil (2013); Jenseits der Bibliothek, Frankfurt Book Fair (Frankfurt, 2013) e Além da Biblioteca, Museu Lasar Segall (São Paulo, 2011). Participou de residências como Bolsa Pampulha (Belo Horizonte, 2008-2009); Atelier de Gravura da Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre, 2011). Recentemente esteve em residência na Casa de Velázquez em Madrid como ganhador da Bolsa Iberê Camargo 2014. Entre as premiações, destacam-se o Prêmio Aquisição do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo (2013), Prêmio Funarte de Arte Contemporânea (Belo Horizonte, 2011) e Prêmio Fiat Mostra Brasil (São Paulo, 2006). Em 2012, realizou sua primeira exposição individual internacional na RH Gallery, em Nova York. Possui obras em acervos públicos e privados no Brasil e no exterior, incluindo Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Arte da Pampulha, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Fundação Iberê Camargo, Casa de Velázquez/Madrid, entre outros.

MARINA CAMARGO (Maceió, 1980) www.marinacamargo.com
Sua formação se divide entre Porto Alegre (onde realizou graduação e mestrado em Artes Visuais), Barcelona e Munique, onde estudou como artista bolsista do DAAD. Em seu trabalho investiga as relações de representação das coisas ou fenômenos do mundo, seja através da relação direta com os lugares ou a partir referências encontradas. Entre os diversos prêmios e bolsas que recebeu, está a bolsa da Fundação Iberê Camargo para residência no Gasworks (Londres). Suas exposições individuais mais recentes foram Ensaio sobre uma ordem das coisas (2015), Goethe-Institut, Porto Alegre; Reflexo Distante (2013), Galeria Bolsa de Arte, Porto Alegre; O ar entre as coisas (2013), Galeria A Sala (IAD), Pelotas; Planisfério (2012), Galeria Zipper – projeto Zip’Up, São Paulo. Em 2015, participou das seguintes exposições coletivas: ARTE E CIÊNCIA: Nós entre os extremos, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo Filmes e Videos de Artistas — Itaú Cultural e Fundação Iberê Camargo, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre FINISTERRE, Kultureland, Porto, Portugal PROYECTOR 15, 8. Festival Internacional de Videoarte, Madri, Espanha IVAHM, Festival Internacional de Video Arte de Madrid (New Media Festival), Centro Neomudéjar, Madri, Espanha.

As informações contidas na agenda são de responsabilidade dos museus e galerias e não representam a opinião da Dasartes.

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