Curador Luiz Camillo Osorio comenta relações entre arte, política e mercado.

Entrevista de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada no Ilustríssima, no jornal Folha de S. Paulo em 8 de março de 2015.

Curador Luiz Camillo Osorio comenta relações entre arte, política e mercado

Entrevista de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada no Ilustríssima, no jornal Folha de S. Paulo em 8 de março de 2015.

RESUMO Curador da representação brasileira na próxima Bienal de Veneza, ao lado de Cauê Alves, Luiz Camillo Osorio fala sobre os critérios adotados e trata de outros temas da arte contemporânea. Ele diz acreditar que as relações da arte com a política são históricas e inevitáveis, embora, por si, não sejam garantia de qualidade.

Há seis anos à frente do Museu de Arte Moderna do Rio, o carioca Luiz Camillo Osorio é o responsável, ao lado do paulista Cauê Alves, pela curadoria do pavilhão brasileiro da próxima Bienal de Veneza, que abre suas portas no dia 9 de maio. A dupla indicou para representar o país um trio formado pelo veterano Antonio Manuel e dois nomes promissores da arte contemporânea, Berna Reale e André Komatsu. A obra de Manuel engendrou-se no ambiente de alta voltagem cultural e política das décadas de 1960 e 1970, quando uma geração de artistas se viu diante da urgência de adotar estratégias de engajamento e contestação que preservassem a potência e a intensidade estética de seus trabalhos. Em diálogo com essa cena antecedente, Osorio considera que as obras de Reale e Komatsu, cujas trajetórias despontam neste século, “se precipitam no mundo e não temem a contaminação com a realidade bruta”.

Doutor em filosofia e professor da PUC-Rio, o curador fez parte do conselho do MAM paulista e é autor de inúmeros ensaios e textos críticos, além de livros sobre artistas como Flávio de Carvalho e Abraham Palatnik. Em entrevista à Folha, ele fala sobre as escolhas para Veneza, a politização da arte, o estatuto da crítica e os desafios enfrentados pelos museus e instituições no Brasil.

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Folha – Você pode comentar os critérios das escolhas para a representação brasileira na próxima Bienal de Veneza?
Luiz Camillo Osorio – O primeiro critério, subjetivo mas relevante, é que tanto eu como o Cauê gostamos muito das obras desses três artistas que escolhemos e temos a convicção de que farão um pavilhão potente. É bom frisar que não foi nada fácil fazer a escolha. Tem muito artista interessante e o espaço de Veneza é pequeno. Decidimos de início que queríamos levar um artista já com carreira consolidada e um ou dois outros, mais jovens, de trajetória recente, que pudessem dialogar com ele constituindo uma única exposição e não duas ou três individuais. O nome do Antonio Manuel veio primeiro.

Um artista indiscutível, cujo engajamento político e qualidade artística se mantiveram ao longo dos anos sem nunca cair no ilustrativo. Há em sua poética uma articulação bastante interessante entre corpo e forma ou entre precariedade e rigor.

Do “Corpobra” (1970) aos muros (“Ocupações/Descobrimentos”, 1998) há uma urgência latente que projeta o corpo e rompe com os limites dados. Essa mesma urgência, a mesma precariedade e a mesma concretude estão presentes, de modos muito distintos, é claro, em Berna Reale e André Komatsu. São dois artistas cujas obras se precipitam no mundo e não temem a contaminação com a realidade bruta.

Nas duas primeiras salas teremos o filme “Semi-ótica”, do Antonio Manuel (1975), de frente com o vídeo “Americano” (2013), da Berna. Com quase 40 anos entre eles, é um mesmo Brasil dos desvalidos que eles revelam e enfrentam e o fazem de modo poético, pondo-se em risco, experimentando com a linguagem e com o próprio corpo. Nas outras duas salas, teremos “muros” do Antonio Manuel com uma instalação menor -“Nave”-, realizada no ano passado no MAM-Rio, em que projeções são desfocadas com uma água que pinga incessantemente dentro de um cubículo feito de portas. Em frente teremos uma instalação do Komatsu, “Status Quo”, que será montada pela primeira vez com cercas de arame que comprimem o corpo do visitante. Como diz o título escolhido para o pavilhão: “É Tanta Coisa que Não Cabe Aqui”. A frase, aliás, foi apropriada de um dos milhares de cartazes que invadiram as ruas brasileiras nas manifestações de 2013.

A arte contemporânea parece premida por uma certa vontade de “participar”, de “intervir no mundo”, de se mostrar “consciente e política”. Os resultados não raro são desastrosos. Estamos vivendo uma época de politizacão exacerbada, e muitas vezes ineficaz, produzida para bienais e curadores?

Eu diria que essa “vontade de participar, de intervir no mundo, de se mostrar consciente e política” não é só da arte contemporânea, mas de todos nós que vivemos em um mundo, no mínimo, inquietante. A arte não poderia ficar de fora. O que vem se passando no mundo -1989, 2001, 2008, 2012 e aqui 2013, para falar só de datas recentíssimas- leva qualquer um a buscar algum tipo de envolvimento com a realidade. Isso tampouco é novo na arte: a arte nos anos 1920/30 e depois nos anos 1960/70 também foi extremamente politizada. Muitas obras ficaram datadas e outras estão entre as mais relevantes no século 20.

É claro que a dimensão política não é garantia alguma de boa arte e que há artistas que produzem grandes obras sem qualquer interesse em política. A política da arte não passa, necessariamente, pela intenção do artista. Os resultados frequentemente desastrosos a que você se refere não me parecem ter a ver com isso, com a vontade política, mas sim com a quantidade superlativa de exposições, galerias, museus, centros culturais, bienais, feiras e mais feiras. A quantidade não é inimiga da qualidade, todavia a qualidade é sempre rara. A ineficácia é algo a ser matizado nesse contexto. A temporalidade da arte é diferente da política e ela atua abrindo novas formas de perceber, falar e compreender a realidade. Ela opera neste registro virtual em que a linguagem e a subjetividade se reinventam na configuração de novas possibilidades de ser que não necessariamente se atualizam no presente. Neste aspecto, a imaginação ainda é algo da maior relevância.

Como diziam os românticos, é a rainha das faculdades. A arte e a imaginação estão sempre irmanadas. E a arte é política justamente nos fazendo imaginar outros mundos possíveis, nos fazendo desnaturalizar aquilo que a ideologia dominante cristaliza, nos viabilizando outras formas de vida.

Grande parte da crítica de arte migrou para a curadoria. Como você vê o estatuto da crítica hoje, seja a da imprensa, das revistas especializadas e da academia?

É um problema complicado. A crítica na imprensa retraiu-se, principalmente em função da retração da própria imprensa. Ter um jornal no Rio e dois em São Paulo mostra que o jornal impresso tem um campo de ação reduzido.

Quando o Sábato Magaldi fazia crítica de teatro no Rio, em 1950, havia mais de dez jornais na cidade e, naquele ano, ele fez quase uma crítica por dia, sendo que alguns espetáculos recebiam crítica ao longo de vários dias seguidos, analisando múltiplos aspectos da mesma peça. Até no dia seguinte a final da Copa, entre Brasil e Uruguai, saiu uma crítica dele! Ou seja, o jornal cumpria um papel na formação de um debate público. Hoje os três jornais principais mantêm suas colunas de crítica, com profissionais da maior competência, mas ela acontece apenas uma vez por semana e tem um lugar meio lateral nos cadernos de cultura. Suplementos como a “Ilustríssima” resistem heroicamente, mas gostaria de saber com que reverberação pública.

Infelizmente, estamos premidos pelos afazeres e as pessoas não dispõem de tempo para parar e ler algo mais reflexivo. A crítica não está a serviço do entretenimento, mas da arte, do que nela é pensamento e complexidade, ou seja, com a dimensão crítica da obra e de sua inserção no circuito. Somos cotidianamente forçados a saber de mil coisas inúteis e desestimulados a problematizar o que se apresenta. E isso só serve à máquina do consumo e à angústia.

Quanto à crítica ter migrado para a curadoria, pode ser um aspecto interessante, não vejo problema nisso, é como se a crítica passasse a pensar espacialmente e não verbalmente. As exposições de arte estão dentro de um circuito complicado, cheio de armadilhas, misturando entretenimento e um mercado poderoso com uma pretensão reflexiva e crítica constante da arte, com referências filosóficas, antropológicas, científicas, tudo ao mesmo tempo.

Podemos ler isso como apelativo, como algo arbitrário e pernóstico a serviço de um circuito comercial dominante, mas também podemos olhar os museus e as bienais como lugares institucionais que buscam se redefinir, procurando oferecer ao público experiências não convencionais que nos obriguem a parar para lidar com o não evidente, aquilo que o [crítico de arte americano] Harold Rosenberg (1906-78) chamava de objeto ansioso.

Eu tenho o maior apreço por museus, pelos encontros que podem acontecer ali com coisas inesperadas e pela vivência sempre desnorteante de uma experiência estética. Há que se dar este tempo e esta oportunidade a qualquer um que se disponha.

Já a crítica universitária tem seu circuito próprio, segue produzindo um material interessante, apesar das pressões absurdas do sistema acadêmico. Entretanto, ela sofre de um certo isolamento, obrigando o teórico e crítico a ter uma atuação combinada com museus e outras instituições culturais e artísticas. É o meu caso, por exemplo, como de muitos outros.

Eu sou da universidade, professor da PUC, e estou atuando como curador no MAM. Outro aspecto que acho que só tende a crescer é a crítica no espaço virtual, nos blogs e sites. É natural que haja esse crescimento e que nichos se produzam a partir daí. O espaço público está se redefinindo e se fragmentando a partir dessa mediação tecnológica.

Quais são os desafios das instituições de arte no Brasil? Como poderiam se tornar mais sustentáveis?

O principal desafio é encontrar sua própria forma de atuação. Acho irrealista querermos ser MoMA ou Tate. Temos que ser mais preocupados com a sustentabilidade dos processos, ao mesmo tempo que devemos ter em mente o tipo de atuação que o museu ou centro cultural deve ter em cada caso. Acho que as coisas estão melhores hoje, vejo com bons olhos as mudanças no Masp, por exemplo, que quer encontrar uma forma de governança viável e que esteja à altura daquela coleção. O MAR, no Rio, também procura criar a sua especificidade institucional e o IMS mostra que uma instituição privada com acervo e uma programação impecável ligada a uma empresa ou a um banco pode funcionar sem lei de incentivo.

O mercado de arte está inflacionando os valores de circulação de obras e de produção de exposições, tornando o processo insustentável. Para pedir uma pintura emprestada a qualquer museu, principalmente lá fora, paga-se uma fortuna de “fee” (taxas), de seguro, de transporte, além do “courier”, que muitas vezes quer viajar de classe executiva para a montagem e a desmontagem da mostra. Com dez obras assim, inviabiliza-se uma exposição ou ficam os museus à mercê de financiamentos bilionários. Como sair desse impasse? Deve haver uma ação coordenada pelos museus, criando parcerias e mecanismos de troca entre as instituições.

Não é fácil, é um desafio. Há que se baratear as coisas, não dá para as exposições serem orçadas em R$ 1 milhão, R$ 2 milhões, e isso ser normal. Baratear não significa piorar a qualidade, não é isso, mas racionalizar e coordenar os processos.

Qual o papel da educação no que diz respeito à arte? Estamos longe do ideal? Os tais setores “educativos” de museus e instituições funcionam ou são mais para constar?

Dizer que a educação tem papel fundamental é chover no molhado. Ninguém diria que não tem. O problema é como fazer para qualificar e democratizar ao mesmo tempo. Quando o Brizola (1922-2004) falava de tempo integral nas escolas -com escolas preparadas para turno único- era taxado de populista, demagogo e se dizia que não haveria dinheiro para isso. Tem que ter, há que se tirar de algum lugar. Há que se fazer um investimento sério em educação, nos programas pedagógicos e nas escolas públicas. Ensino fundamental e ensino médio deveriam estar sendo articulados pelo governo federal, junto com os Estados e municípios.

Por outro lado, não dá para negar a crise da educação no mundo contemporâneo. Não podemos fingir que basta comprar uns computadores, botar nas salas de aula e o problema se resolve. É preciso encontrar outras e novas formas de educação, sem excluir o bom e velho livro e as aulas presenciais como mecanismos de troca e aprendizado coletivo. As crianças hoje aprendem nos seus computadores e celulares, eles são aliados, mas há que se ensinar a pesquisar, a pensar junto ao que se pesquisa, há que se ensinar a problematizar os dados e a se admirar com a beleza e a simplicidade.

A arte e a cultura têm um papel decisivo aí. Parte do orçamento dos museus deveria estar integrado ao financiamento da educação. Não é uma coisa fácil. O MAC de Niterói, por exemplo, construiu um espaço, desenhado pelo Niemeyer, o “Maquinho”, para projetos educativos e sociais dentro da comunidade que fica em frente ao museu. Algo inovador e que até hoje sofre de certa incompreensão da prefeitura, que não mantém a regularidade do financiamento como deveria. Os pontos de cultura criados pelo ministro Gilberto Gil têm um papel relevante. É algo a ser multiplicado, que pode servir como forma de viabilizar o aprendizado e a criação, a educação e a arte. Não se pode educar sem estimular a criação, e não se pode criar sem uma base de conhecimentos mínima, sem um quadro de referências que sirva como parâmetro, mesmo que se transformem os parâmetros depois.

Os museus e centros culturais têm feito sim um trabalho educativo importante, atuando na maior acessibilidade pública destes espaços, mas não basta fazer visita guiada, é preciso estimular o olhar de cada um, fazer cada um ver que nem tudo se mostra de uma vez, que há algo invisível, inapreensível, intraduzível na experiência da arte. Há que se estimular a contaminação de olhares diferentes e de formas de diálogo novas entre obras de arte e de não arte. Este também é um papel da curadoria.

A arte é necessariamente elitista?

Esta é uma pergunta capciosa. Necessariamente eu diria que não é, mas há nela uma opacidade que não a torna acessível imediatamente. Não adianta explicar arte, não há algo que se resolva no âmbito da explicação. Há que se dispor a uma relação trabalhosa, mas é um trabalho prazeroso, estimulante, jamais penoso e chato.

O escritor português Lobo Antunes faz uma distinção interessante entre literatura relevante e literatura de entretenimento. Diz que, como as piscinas, tem literatura que dá pé e outra que exige o esforço do nado para nela ficarmos sem afundar.

A arte sempre exige alguma natação, não pode dar pé. Em suma, se não é para todos, é para qualquer um que se disponha a ter com ela uma troca criativa.

Como você vê a produção brasileira hoje em relação aos principais centros, em termos de qualidade e também de valor?

Acho, sinceramente, a produção brasileira da maior qualidade, não deixa nada a dever a qualquer outro centro. Na verdade, o mundo da arte está completamente globalizado e falar em arte brasileira traz sempre uma pergunta sobre o que seria o brasileiro nesta arte -se tem a ver com passaporte ou pertencimento a um quadro de referência histórico.

É interessante como a arte brasileira está influenciando artistas estrangeiros e como há pesquisadores e curadores discutindo arte brasileira. Não fico uma semana no MAM sem receber alguém de fora interessado na arte brasileira.

Você vai aos principais museus e eles já misturam obras brasileiras em suas exposições permanentes. Fora isso, a arte brasileira nos últimos anos também se “descentralizou”, aparecendo muitos artistas interessantes fora do eixo Rio-São Paulo. Peguemos o Jonathas de Andrade, a Berna Reale e o Yuri Firmeza, para falar dos últimos anos. Cada um vem de um Estado diferente e segue vivendo em cidades do Norte e Nordeste: Recife, Belém e Fortaleza, respectivamente.

Duas instituições fundamentais surgidas recentemente também estão fora deste eixo: Inhotim, em Minas, e Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Isso é ótimo para a arte brasileira. Sobre valor de mercado, aí não tem muito o que discutir -se tem quem pague, tem valor, apesar da instabilidade e da dificuldade de liquidez. A minha sensação, entretanto, é que os preços estão loucos, altíssimos, insustentáveis. Não só aqui, por toda parte.

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES, 58, é editor da “Ilustríssima”, autor de “Pós Tudo – 50 Anos de Cultura na Ilustrada” (Publifolha) e “1922 – A Semana que Não Terminou” (Companhia das Letras).

 

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