
Última semana para ver “TRÂNSITO CÁ ÓTICO”
A exposição TRÂNSITO CÁ ÓTICO, em princípio, enseja um debate sobre algumas possíveis concepções do termo em questão: trânsito. Entretanto, o que cada artista se propõe é colocar sua vivência. A convivência com esse fluxo de informações assimiladas e descartadas no qual estamos imersos. Assim, a exposição fomenta olhares voltados para um caótico existente. Dessa forma, a mostra se revela como um grande painel do cotidiano. Essências de artistas que vivem e trabalham no Rio.
Uma possível distinção entre os trabalhos se dá a partir da percepção das diferentes mídias eleitas. Essas técnicas, por sua vez, se desdobram sobre o que um termo amplo, como “trânsito”, pode abarcar. Contudo, em outra ponta das possíveis abordagens, aparece um latente fluxo de tensões e distanciamentos entre os trabalhos. Isso revela algo afeito à tão comentada “teoria do caos”, que sustenta a observação de que a partir de uma contemplação macro ser possível se perceber ordem no que seriam pequenos momentos de caos. Aliás, sem esquecer que caos é uma concepção humana, perfeitamente vinculada a individualidades.
Por fim, o que se pretende é convidar o espectador a compartilhar desse pequeno e grande olhar sobre essa “colcha de retalhos”. A exposição acontece no Centro de Arte Maria Teresa Vieira, com co-curadoria de Otávio Avancini e dos artistas.
Antonio Pinheiro apresenta um vídeo. Trata-se de um movimento explanatório da “Última Inocência” retomada a partir de referências arquetípicas que tem por base a “experiência privada”. O trabalho se comporta como uma espécie de “EU”. Não se tem aqui a sublimação de um estado de alma, mas o impulso de escrever uma biografia. Persistindo assim em uma arte situada no sujeito.
Claudia Dowek propõe, com seus “objetos”, o que seria um transitar da memória. Vestígios de eventos que restariam em nossas lembranças longínquas e manifestados com as distorções provocadas pelo curso do tempo.
São objetos que estão simplesmente ali, expostos, como se apenas fizessem parte da decoração. O seu significado real se perdeu. As pessoas se desfazendo em pó, pois nem são mais lembradas, a santa petrificada e caída dentro de uma tradição que é apenas repetida, sem ser entendida. Símbolos que perdem sua força na poeira do tempo.
Eduardo Mariz de certa forma também lida com elementos da memória. Sustenta o que seria um conceito poético de foto-assemblage. Seus trabalhos se montam a partir de duas fotografias que assentadas sugerem imagens contínuas. A proposta é que dos diálogos e concursos surgidos entre os elementos aparentes evidenciem o que seria um trajeto de espaço e tempo subjetivado e condensado entre as imagens básicas.
Nilton Pinho interfere no espaço em si. Impede um previsível transitar de pessoas pela própria galeria. Seria a “pedra no meio do caminho”? Ao escolher colocar suas pinturas no chão, ao mesmo tempo em que atrai os olhares dos visitantes os induz a circular pelos “corredores” restantes.
Essa seria também uma das pontes para a abordagem das pinturas de Rosane Chonchol, que evidenciam a idéia de movimento em seus fluxos de cor e matéria. Maria Teresa Vieira quando a viu trabalhando disse de imediato: a sua pintura é lisérgica! Na realidade o veredicto da mestra foi perfeito. Rosane continua catártica, abusada com o efeito mágico das cores e da diversidade de materiais. Extravasa a sua criança interior, de uma maneira criteriosa, cria uma arte racional, permitindo-se a “di–versão” Trabalha com a estética do desejo.
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