DSC_6324_zwartwit_creditMark van Etten

Chance, primeira mostra de Christian Boltanski no Brasil, ocupa o espaço da Casa França-Brasil

Imagens de recém-nascidos deslizam rapidamente por roldanas que correm sobre a cabeça dos visitantes, enquanto grandes relógios digitais contabilizam o saldo de nascimentos e mortes do dia. Essa é a primeira cena com que o visitante se depara ao entrar na Casa França-Brasil, a partir de 17 de maio, para visitar Chance, a primeira exposição no Brasil da obra do francês Christian Boltanski, um dos mais importantes nomes da arte internacional.

O trabalho que ocupa o salão principal da instituição chama-se A roda da sorte e estreou na 54ª Bienal de Veneza, em 2011. Além deste, Chance reúne duas outras obras igualmente intrigantes: Últimas notícias dos humanos e Ser de novo. Apesar de remeterem à permanente reflexão de Boltanski acerca de diferentes aspectos da existência humana, como a identidade, a ausência, a perda e a morte, uma clara mudança de tom se opera nesta grande instalação. O teor soturno, característico de sua produção canônica sobre a memória, dá lugar aqui a uma obra radicalmente ambígua, onde a luz do dia revela uma interrogação acerca das relações conflituosas entre o acaso e o destino.

Christian Boltanski utiliza-se do médium da ‘exposição’ para expressar-se: o que ele chama comumente de trabalho de memória é, na realidade, a construção coletiva de uma situação.  Cada montagem de suas obras é, portanto, sempre única, e a adaptação de Chance ao espaço da Casa França-Brasil não foi exceção. O artista coordenou pessoalmente a instalação em seus mínimos detalhes, como o som e a iluminação, com o intuito de oferecer ao espectador um mergulho singular numa situação artística que combina interação e reflexão.

O fascínio de Boltanski pelo papel do acaso na existência humana é uma presença permanente em seu trabalho. Nascido em 1944 na França, de pai judeu e mãe cristã, colocou em entrevista recente a seguinte questão: se eu tivesse sido gerado num momento diferente do que fui, quais seriam as chances de eu ser a pessoa que sou e não um outro? Essa busca pelo sentido, em contraposição a questões como a fé, o determinismo, o destino ou o simples acaso, está na raiz de sua obra, que promove a síntese improvável entre e a neutralidade formal da arte conceitual e o poder de comoção de uma obra expressionista. Nesta, a forma está sempre a serviço do sentido, mas a reflexão que propõe não pode ser alcançada senão pela percepção e sensibilidade do espectador – que “cria”, por assim dizer, uma obra nova ao participar e interagir. Afinal, os olhos sempre produzem uma outra imagem.

Como será o mergulho em Chance na Casa França-Brasil

No salão central da Casa França-Brasil, o visitante pode caminhar entre as armações metálicas da obra monumental A roda da sorte (La Roue de La chance). Concebida como o maquinário de uma gráfica de jornal, a instalação faz desfilar, por suas roldanas ruidosas uma seqüência de fotografias de recém-nascidos. A velocidade dessa rotativa, somada à direção tortuosa das roldanas e ao formato idêntico das fotografias, contribui para uma percepção de indistinção das imagens. A experiência sensorial do espectador — a princípio, totalmente imersiva —, é então subitamente interrompida pelo som de uma sirene, que assinala a parada da máquina: uma fotografia é selecionada aleatoriamente e projetada num telão de grandes proporções.

Como destaca Jean-Hubert Martin, curador de sua primeira versão no pavilhão da França na 54a Bienal de Veneza, a ambigüidade é a marca desse trabalho.

O destino decidiu: um deles é escolhido e escapará da banalidade de uma vida sem história: será um santo, um criminoso, um vadio, um sábio ou uma vedete. Mas esse mesmo destino pode designar também a morte súbita de um recém-nascido, fenômeno sem explicação que atormenta os jovens casais – diz. Poucos segundos após a projeção, o processo mecânico é retomado e funcionará até que o destino sinalize sua próxima escolha. – Assim como na vida real, isso acontece sem que ninguém possa dar qualquer explicação racional a esta escolha e aos eventos que podem se seguir – pondera Martin.

Em frente a essa alegoria sobre a vida e a morte, representada por uma espécie de “máquina infernal”, o visitante encontrará outra representação do destino, desta vez interativa: Ser de novo (Être a nouveau). Com um simples toque de botão é possível fixar as mesmas imagens dos bebês num grande telão, inicialmente dividido em três faixas horizontais. Como numa máquina caça-níqueis, o espectador lança a sorte. O objetivo é fazer com que três faixas desconexas formem um rosto de recém-nascido e lhe atribuam uma nova identidade, ainda que provisória. Em “Últimas notícias dos humanos (Dernières nouvelles des humains), que ocupa as salas laterais, o visitante será informado em tempo real, por meio de dois gigantescos painéis digitais, do saldo de óbitos e nascimentos do dia.

A atmosfera ambígua de Chance se evidencia desde o título da exposição. Chance, em francês, tem uma conotação claramente positiva, de sorte e fortuna; na língua inglesa, porém, a palavra vem lembrar ao espectador que o acaso não pode existir sem a dimensão do risco. Em português, o título devolve à obra o seu sentido original – de oportunidade, de convite à reflexão sobre a existência, de um ponto de vista menos sombrio que seus trabalhos habituais. Esta readaptação do título no contexto lusófono é altamente simbólica para uma obra que tem por natureza a capacidade de se reinventar em cada nova montagem

Como é o caso das obras mais recentes de Boltanski, como ‘Pessoas’ (apresentada de formas diferentes em Paris, em Nova York e em Milão), a remontagem de ‘Chance’ não é apenas uma repetição, mas a ocasião de uma verdadeira recriação – orgulha-se Evangelina Seiler, presidente da Casa França-Brasil. – O artista veio pessoalmente à Casa França-Brasil determinar a forma de instalação da obra, observando as especificidades arquitetônicas e cenográficas do prédio histórico”.

Essa busca pela forma adequada de ocupação do seu espaço norteia os convites feitos aos artistas pela Casa França-Brasil – que já recebeu obras de Iole de Freitas, Hélio Oiticica, Laura Lima, Rosana Palazyan, Daniel Senise e Valérie Belin. – Acredito ver na obra do artista francês Christian Boltanski o desenvolvimento gradual de uma mesma consciência da dimensão do espaço. É um grande momento na obra do artista e uma grande honra para a Fundação recebê-lo – conclui Evangelina Seiler.

A mostra, que tem patrocínio exclusivo da Citroën, contará com a presença do curador Jean-Hubert Martin, que idealizou algumas das mais marcantes exposições das últimas décadas, como ‘Magiciens de La Terre’ (1989).

O artista

Christian Boltanski nasceu em Paris em 1944. Começou a pintar de forma autodidata em 1958, mas foi em 1968 que começou a atrair a atenção do público, com alguns filmes de curta-metragem e com a publicação de vários livros de notas – material de vanguarda cujo conteúdo era centrado na existência humana, tanto real quanto ficcional. Essa relação permaneceria como o conceito dominante do trabalho artístico que desenvolveria mais tarde, fosse tratando de sua própria vida ou a de outros.

‘Pesquisa e apresentação de tudo que resta da minha infância 1944-1950’, livro do artista lançado em 1969, é um marco inaugural de sua carreira. Neste, Boltanski apresenta os primeiros frutos de sua nova fase pós-pictórica: bolinhas de terra, pequenas facas, pedaços de açúcar talhados, obrais artesanais representando pequenos objetos marcantes de sua infância. A partir de 1970, Boltanski passou a incorporar novas formas de expressão para explorar a consciência e a memória, sobretudo a fotografia. Destacam-se neste período a obra de 1970 ‘Álbum fotográfico da família D entre 1939 e 1964’’ e ‘As roupas de François C.’, de 1972.

A partir dos anos 1980, as experiências com iluminação de pequenas figuras, expressas em ‘As Sombras’ (1984), dão a toda a produção de Boltanski um caráter mais teatral e solene.  Suas exposições, meticulosamente montadas, passariam então a ser concebidas como obras de arte em si mesmas, como é o caso de ‘Reserva’ (1990) e de ‘As Tumbas’ (1996). Desde então, fotografias e documentos coabitam em suas instalações com roupas, livros e outros tantos objetos anônimos, que figuram como reminiscências de uma vida passada e, muitas vezes, desconhecida. Foi o que se viu recentemente sob o imenso domo de vidro do Grand Palais de Paris, com a obra ‘Pessoas’ (2010).

Boltanski já expôs em grandes instituições, como o New Museum of Contemporary Art (Nova York); o Musée National d’Art Moderne, do Centre G. Pompidou (Paris); e o Museum of Contemporary Art (Los Angeles), entre outros. Publicou livros em várias editoras de renome e tem obras nas coleções permanentes de grandes museus ao redor do mundo, como o Museum of Modern Art (Nova York); o Walker Art Center, (Mineápolis); Centre G. Pompidou (Paris); Tate Modern (Londres) e San Francisco Museum of Art (São Francisco).

Jean-Hubert Martin

À frente de inúmeros museus e instituições, Jean-Hubert Martin desperta o interesse da comunidade artística desde os anos 1970, não apenas por seus conhecimentos e entusiasmo pela arte moderna e contemporânea, mas por seu papel na promoção de expressões artísticas fora do eixo ocidental.

Especialista no movimento Dada, organizou uma grande retrospectiva de Francis Picabia no Grand Palais (1976), bem como duas grandes exposições em torno da obra de Man Ray no Museu de Arte Moderna — todas em Paris. Em 1988, já na posição de diretor do prestigioso Centro Georges Pompidou, dedicou duas salas inteiras do museu às obras radicais de Marcel Duchamp e do mesmo Picabia.  Modernizou também a coleção do Centro com a aquisição de obras importantes de artistas contemporâneos como Beuys e Tinguely, assim como de toda a geração de Boltanski (Annette Messager, Sarkis, Cadere, Fleischer, etc.) que conheceu ainda jovem, logo após os eventos de maio de 1968.

Seu interesse pelo diálogo entre culturas se manifestaria já na série de exposições iniciadas em 1978, Paris-Berlin e Paris-Moscou, nas quais procurou mostrar o intercâmbio cultural entre as capitais culturais da modernidade. Interessado na crescente cena artística russa, foi o primeiro a promover uma grande mostra na França de Casimir Malevitch, além de exibir mostras consagradas às obras de Illya Kabalov e de Erik Boulatov, e de responder pela curadoria da bem sucedida 3a Bienal de Moscou, em 2009.

A exposição mais importante que realizou foi Os Mágicos da Terra (Paris 1989), na qual articularia sua crítica ao etnocentrismo europeu do circuito da arte até então dito ‘mundial’. Expondo lado a lado as mais importantes vanguardas do Ocidente e obras de artistas pouco conhecidos do resto do mundo, abria um debate apaixonado sobre a existência da criação artística no terceiro mundo e sua difícil circulação nas instituições europeias e norte-americanas.

Participou desde então de incontáveis mostras internacionais, entre as quais as bienais de Sydney (1982 e 1993), Johanesburgo (1995), São Paulo (1996) e Lyon (2000).

Comente