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Entrevista com Frederico Morais

Entrevista com Frederico Morais

(Por Chandra Santos)

O circuito de arte é composto pelo artista, pelo público, pela escola, pelos centros culturais e pela crítica. Frederico Morais participou de todos. Como jornalista, foi crítico de arte durante anos no Diário de Notícias e no O Globo − onde publicou uma coluna que se tornou referência na área de artes visuais. Foi professor de história da arte e coordenador dos cursos do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Flamengo. Utilizando audiovisuais, inovou na maneira de criticar e acabou criando suas próprias obras como artista. Frederico Morais falou como crítico de arte e artista visual, bem como relembrou os Domingos da Criação que aconteceram entre janeiro e julho de 1971, no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro – tema do recente documentário Um Domingo com Frederico Morais, dirigido por Guilherme Coelho.

Leia, abaixo, um trecho da entrevista que Frederico Morais concedeu à DASartes.

Dasartes: Qual a validade da crítica de arte?

Frederico Morais: Tradicionalmente o crítico é aquele que julga a obra de arte dentro de uma perspectiva acadêmica baseada em princípios estéticos gregos. Porém os princípios mudaram, assim como os artistas, os materiais, os contextos e as relações entre a obra de arte e a sociedade. A idéia que passei a defender é que o crítico, através de seu julgamento e do conhecimento que possui, pense a obra de arte de acordo com os dados fornecidos pelo artista. Muitas vezes ele é incapaz de ver certos aspectos da obra por estar preso aos princípios estéticos gregos.

Dasartes: Crítico e obra de arte se somam ao se encontrarem ou tomam caminhos distintos?

Frederico Morais: A contribuição do crítico é na sua leitura agregar significados e, sobretudo, estabelecer a relação dessa obra de arte não só com o artista, mas com a sua história social, geográfica, antropológica, política e cultural. Se a obra é poderosa e estimula o crítico a pensar, consequentemente, ele deve tentar enriquecê-la mais ainda. As sucessivas leituras que são feitas de uma obra passam a integrá-la.

Dasartes: Quando começou sua relação com os audiovisuais?

Frederico Morais: Em certo momento comecei a teorizar que a crítica de arte não é somente julgamento, mas também criação. Envolvi-me de maneira intensa com o processo criador do artista e fui percebendo que esse envolvimento poderia também se tornar um gênero. Passei a defender uma crítica que não fosse necessariamente um texto, uma coluna de jornal, um ensaio de revista, um texto de apresentação. Achei que era possível fazer crítica de arte usando outros instrumentos. A primeira crítica não-verbal foi produzida em 1969. Na ocasião,ocorria no MAM-RJ uma exposição em que os artistas utilizavam materiais não-convencionais, como pedra, areia e brita. Paralelamente, a cidade do Rio de Janeiro estava em obras. Então, fotografei as duas situações separadamente e construí slides para retratá-las. Era um comentário visual que tentava explicar a obra e mostrar a relação entre o que estava dentro eo que estava fora do museu.

Dasartes: Entender o significado de uma obra de arte sempre foi assunto polêmico.

Frederico Morais: Você se aproxima da obra com uma bagagem enorme de informações sobre ela. Isso gera um bloqueio para compreendê-la. A obra de arte exige uma relação de avanços e recuos, de delicadezas e agressões. Com frequência você não consegue compreender a totalidade da obra e o insight não se dá no momento de contemplação. Muitas vezes, a compreensão da obra se dá fora do museu, meses ou anos depois, quando você está em outra atividade. É necessário unir a experiência refinada da obra de arte com a experiência dos atos cotidianos. A arte está em tudo.

Dasartes: Do crítico a produtor de arte: em que momento isso se deu?

Frederico Morais: Comecei a fazer o audiovisual como uma poesia. E passou a ser um trabalho meu. A partir daí eu já atuo como artista. Não porque eu desejasse esse status, mas porque aconteceu. Ao longo de 10 anos, entre 1969 e 1979, produzi cerca de 20 audiovisuais sobre diversos temas na área de artes. A arte não é uma coisa intocável, isolada num céu platônico. Ela é contaminável com as questões políticas, sociais, econômicas, religiosas, com a emoção das pessoas. Está dentro de um sistema. Sempre vejo a arte como parte da sociedade. Ela nunca está sozinha, está sempre relacionada a alguma coisa. Não é papel da arte tratar os males sociais, mas em alguns casos é usada para tal fim. Ela é um instrumento para isso. Não é tarefa dela. Não é função da arte doutrinar ninguém.


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